Agrigento revela sua cidade romana e cristã sob os templos gregos

A descoberta ganhou novo impulso em 2026, com mais de 20 campanhas arqueológicas realizadas ao longo do ano e 12 missões trabalhando simultaneamente na área. A reportagem do jornal La Repubblica destaca como o Parque Arqueológico do Vale dos Templos se transformou em um verdadeiro canteiro de pesquisa a céu aberto, envolvendo universidades italianas e estrangeiras, entre elas as de Pisa, Bolonha, Palermo, Lisboa e Bordeaux.
A imagem tradicional de Agrigento é dominada pelos grandes templos dóricos, mas a história da cidade não terminou com a civilização grega. A antiga Akragas foi fundada no século VI a.C. e se tornou uma das principais cidades do Mediterrâneo. Sob os romanos, passou por uma nova fase de prosperidade e, posteriormente, continuou ocupada durante a Antiguidade tardia e o período cristão. É justamente essa Agrigento menos conhecida que os arqueólogos estão tentando reconstruir.
Grande parte da antiga área urbana permanece escondida sob uma paisagem que hoje parece tipicamente siciliana, com oliveiras e amendoeiras. O próprio Ministério da Cultura italiano destaca que uma parcela significativa da cidade clássica e romana ainda está sob o terreno agrícola e que novas evidências continuam aparecendo conforme avançam as escavações.
Em março, por exemplo, foram retomadas as pesquisas no Ginásio de Agrigento, um dos grandes complexos educacionais da Antiguidade. As escavações já haviam revelado um auditório coberto com capacidade para cerca de 160 pessoas, utilizado para o ensino da retórica, além de um monumental vestiário com inscrições dedicadas a Hermes e Hércules. A nova etapa concentra-se na área da palestra e nos sistemas hidráulicos do complexo.
Também estão sendo investigados os antigos bairros residenciais. Uma campanha iniciada em maio concentrou-se nas casas de um setor ao norte da colina dos templos, com estruturas que vão do período clássico à Antiguidade tardia. O objetivo é entender como eram organizadas as residências e como os espaços onde as pessoas viviam se relacionavam com os grandes santuários da cidade.
O mais interessante dessa nova fase é justamente a mudança de perspectiva. Em vez de olhar apenas para os monumentos, a arqueologia tenta descobrir quem vivia ao redor deles, como eram as casas, onde as pessoas estudavam, como circulavam e de que maneira a cidade mudou ao longo dos séculos.
Em setembro, por exemplo, novas escavações começaram em Vito Soldano, na região de Canicattì, em uma área ligada à presença romana. Pesquisas anteriores identificaram ali um grande edifício de pelo menos 30 metros de comprimento, que os arqueólogos consideram possivelmente uma residência de prestígio. A missão envolve pesquisadores da Universidade de Göttingen, na Alemanha, em colaboração com o parque arqueológico e especialistas locais.
A própria estrutura das pesquisas também é reveladora: estudantes e pesquisadores italianos trabalham ao lado de equipes estrangeiras, enquanto visitantes acompanham de perto alguns dos trabalhos. A arqueologia, nesse caso, deixa de ser algo escondido atrás de grades e se transforma em parte da experiência de quem visita Agrigento.
Patrimônio Mundial da Unesco desde 1997, a área arqueológica de Agrigento ocupa cerca de 934 hectares e conserva não apenas os famosos templos, mas também vestígios das diferentes fases da cidade antiga.
Para quem visita a Sicília, isso significa que a Valle dei Templi pode ser lida de outra maneira. Os templos continuam sendo o grande espetáculo, mas agora funcionam também como porta de entrada para uma história muito mais longa: a de uma cidade que nasceu grega, floresceu sob Roma, atravessou a Antiguidade tardia e deixou marcas de sua vida cristã.
A cada nova escavação, Agrigento parece menos uma paisagem parada no tempo e mais aquilo que realmente foi durante séculos: uma cidade viva, habitada por milhares de pessoas, com suas casas, encontros, trabalhos, crenças e histórias ainda esperando para ser descobertas.
