Não estamos no Brasil. Não estamos na Colômbia nem na Guatemala. Estamos em San Lorenzo ai Colli, em Palermo, perto do Parque La Favorita, onde, sob o sol siciliano, crescem plantas de Coffea arabica que já são capazes de produzir um verdadeiro café nascido, colhido e torrado na Itália.
O projeto leva o nome da família Morettino, torrefadores de Palermo desde 1920, e nasceu de uma intuição de Arturo Morettino. Depois de uma viagem à Guatemala, nos anos 1990, ele decidiu experimentar o cultivo de café também na Sicília, utilizando sementes doadas pelo Jardim Botânico de Palermo.
No início eram cerca de sessenta plantas que durante anos, cresceram com dificuldade: Palermo, simplesmente, não tinha o clima dos trópicos. Até que alguma coisa começou a mudar. As temperaturas aumentaram, os invernos ficaram mais amenos e as condições começaram a se aproximar daquelas necessárias para o cultivo do café. Em 2021 foram colhidos 30 quilos de frutos; em 2022, 50; em 2023, 70; e hoje a produção gira em torno de 100 quilos por ano.
A produção continua experimental e ainda é pequena demais para chegar regularmente ao mercado. Os frutos são colhidos à mão, processados, fermentados, secos e, finalmente, torrados. De aproximadamente 100 quilos de frutos são obtidos pouco mais de 15 quilos de café torrado. O objetivo, no futuro, é chegar a um verdadeiro specialty coffee genuinamente italiano.
E até o sabor parece falar siciliano. As degustações identificaram, ao lado das características típicas do Arábica, aromas que lembram flores brancas, flor de laranjeira e uva-passa. Processamentos experimentais anteriores também haviam revelado notas de zibibbo, alfarroba e pluméria.
O projeto é desenvolvido em colaboração com a Universidade de Palermo e o Jardim Botânico, que estudam a adaptação das plantas e as possibilidades oferecidas pelos diferentes microclimas da ilha.
É aqui que a narrativa muda de perspectiva. O fato de ser possível cultivar café ao ar livre em Palermo pode parecer uma extraordinária oportunidade agrícola. Mas é também um dos efeitos visíveis das mudanças climáticas.
No início do século XX, o Jardim Botânico de Palermo já havia tentado cultivar café ao ar livre. Em 1905, 25 plantas foram destruídas pelo frio. Uma segunda tentativa, em 1911, teve o mesmo resultado, mas hoje, essas condições climáticas mudaram profundamente.
Enquanto a Sicília consegue experimentar culturas antes consideradas tropicais, do café ao abacate, nas tradicionais regiões produtoras do mundo, temperaturas elevadas, secas e chuvas irregulares estão colocando as plantações sob crescente pressão.
Assim, uma xícara de café siciliano conta duas histórias ao mesmo tempo. A primeira fala de inovação, pesquisa e capacidade de adaptação, enquanto a segunda é muito menos tranquilizadora: se hoje Palermo pode se parecer um pouco com o Brasil, isso também significa que o clima do Mediterrâneo já não é mais aquele de cem anos atrás.
O primeiro café italiano nasce, portanto, como uma curiosidade fascinante, mas seu verdadeiro sabor pode ser o da mudança.

