O Brasil foi, para milhares de famílias italianas, uma terra de esperança. Uma terra que oferecia aquilo que muitos já não conseguiam encontrar em sua pátria: um futuro, um pedaço de terra para cultivar e a oportunidade de recomeçar. Por trás de cada travessia do Atlântico havia sacrifícios, medos e o desejo de construir uma vida melhor. Foi justamente dessas histórias que nasceram inúmeras colônias italianas, destinadas a deixar uma marca profunda na história e na identidade do Brasil.
Ainda hoje, o país preserva um extraordinário patrimônio cultural e linguístico. Nos bairros de milhares de cidades, espalhadas por diferentes estados da federação, continuam vivas palavras, expressões e dialetos italianos transmitidos pelos imigrantes a seus filhos e netos, tornando-se parte integrante da cultura brasileira.
Hoje vamos levá-los para conhecer uma verdadeira exclave da Ligúria na América Latina.
Ela se chama Colônia Nova Itália e está localizada no município de São João Batista, no estado de Santa Catarina. Ali, a Ligúria não é apenas uma lembrança histórica, mas uma presença viva que continua se manifestando nas tradições, na memória coletiva e no orgulho de seus descendentes.
Os arquivos históricos revelam que, em 1836, partiram 186 migrantes provenientes de diversas localidades da Ligúria e também de outros territórios do Reino da Sardenha. Naquela época, a Itália ainda não era um Estado unificado, mas um mosaico de reinos e ducados. Aqueles homens e mulheres enfrentaram semanas de navegação pelo Atlântico movidos pela esperança de construir uma nova vida no Brasil.
Borgio Verezzi, Sassello, Celle Ligure, Bigliolo, Gênova e Parodi Ligure são apenas algumas das localidades de onde partiram muitos desses pioneiros que decidiram mudar de país e de perspectiva de vida. Hoje, seus sobrenomes, suas tradições e parte de sua identidade continuam vivos do outro lado do oceano.
Quase 190 anos se passaram desde aquela partida, e os descendentes desses pioneiros continuam preservando com orgulho a memória de seus antepassados por meio da Adanpib, a Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil.
O valor da associação vai muito além da preservação da memória. A Adanpib promove pesquisas históricas, valoriza o patrimônio da imigração italiana e trabalha para manter e fortalecer as relações culturais e institucionais entre o Brasil e a Região da Ligúria, transformando uma história migratória do século XIX em uma ponte viva entre a Europa e a América do Sul.
Nos últimos anos, esses laços se fortaleceram ainda mais. A Adanpib foi oficialmente autorizada a representar no Brasil a Associazione Liguri nel Mondo, um importante reconhecimento pelo trabalho realizado na preservação da história da imigração, das tradições e da cultura ligur.
Por meio de suas atividades, promove a cultura regional da Ligúria e incentiva o desenvolvimento de projetos compartilhados entre o Mediterrâneo e o Atlântico, contribuindo para fortalecer um diálogo cultural que continua unindo dois continentes.
A associação organiza encontros culturais, promove pesquisas históricas e atividades genealógicas e realiza, todos os anos, a Festa Ligure di Nova Italia, um evento único no cenário brasileiro inteiramente dedicado à valorização da cultura ligur.
Nesse processo de valorização da própria identidade, a Adanpib apresentou recentemente o seu novo brasão institucional. Cada elemento conta um capítulo da história iniciada no porto de Gênova. A embarcação remete à travessia do Atlântico; a vela com a Cruz de São Jorge presta homenagem à tradição marítima genovesa. Os remos representam o trabalho coletivo dos pioneiros e a navegação pelo Rio Tijucas. Os ramos de manjericão evocam uma das expressões mais autênticas da cultura da Ligúria. As quatro estrelas simbolizam as províncias de Gênova, Savona, Imperia e La Spezia. Por fim, as ondas inseridas na letra “A” representam o Mar da Ligúria e o Rio Tijucas, unindo simbolicamente o local de partida ao de chegada.
O novo brasão não representa apenas uma renovação gráfica, mas o símbolo de uma memória compartilhada que continua unindo a Ligúria e o Brasil.
Fundada em 2017, a Adanpib prepara-se para celebrar, em 2027, o décimo aniversário de sua fundação e já volta o olhar para 2036, quando será comemorado o bicentenário da fundação da Colônia Nova Itália.
Quase dois séculos depois daquela partida do porto de Gênova, essa história continua viva graças aos documentos, às pesquisas, às famílias e aos descendentes que, ainda hoje, mantêm vivo o vínculo com a terra de onde partiram seus antepassados.
A pioneira colônia italiana no Brasil, fundada em 1836, nasceu de uma iniciativa do armador Carlo DeMaria, de origem genovesa, em parceria com o agente consular do Reino da Sardenha em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, Henrique Ambauer Schutel, natural de Milão. Para esse propósito, ambos fundaram a sociedade DeMaria & Schutel em Nossa Senhora do Desterro.
Luc Boiteux, primeiro diretor da Colônia Nova Itália, estudou em uma universidade alemã e exerceu a função de secretário particular do Grão-Duque da Toscana. Após a morte do grão-duque Ferdinando III, ocorrida em 1824, assumiu um cargo de destaque em um banco da cidade de Gênova: justamente o porto de onde, mais de 189 anos antes, partiu o navio “Correio”, levando a bordo os primeiros imigrantes italianos rumo ao Brasil.
A história da Colônia Nova Itália demonstra que a imigração não deixou apenas sobrenomes ou lembranças familiares. Ela construiu comunidades, preservou tradições e manteve vivo um patrimônio cultural que continua sendo transmitido de geração em geração.
E, ainda hoje, no coração de Santa Catarina, continua-se respirando a autêntica alma da Ligúria.

