A herança de €1,8 trilhão que ajuda a sustentar a economia italiana

Segundo uma análise publicada pelo Corriere della Sera, nos próximos dez anos cerca de €1,8 trilhão em patrimônio financeiro e imobiliário poderá mudar de mãos no país. São aproximadamente €180 bilhões por ano, em um processo silencioso que pode ter efeitos importantes sobre o consumo, o mercado imobiliário e a vida econômica das famílias italianas.
A dimensão desse fenômeno está ligada a uma característica marcante da sociedade italiana: a longevidade. A expectativa de vida ao nascer chegou a 83,6 anos, enquanto para quem completa 65 anos a perspectiva média é de mais de 21 anos. É uma transformação extraordinária em comparação com o pós-guerra, quando a expectativa de vida na Itália girava em torno dos 59 anos.
O resultado foi a formação de uma geração de idosos muito diferente daquela de décadas atrás. São milhões de pessoas que chegaram à velhice depois de uma longa trajetória de acumulação de patrimônio, sobretudo imóveis e poupança financeira.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. De acordo com os dados utilizados pelo Corriere della Sera, a riqueza total das famílias italianas alcançou €12,326 trilhões no fim de 2025, incluindo patrimônio imobiliário, participações empresariais e ativos financeiros.
Grande parte está concentrada justamente nas faixas etárias mais avançadas. As famílias cujo responsável tem mais de 65 anos possuem, em média, cerca de €197 mil em patrimônio financeiro. Considerando aproximadamente 9,1 milhões de famílias nessa faixa, chega-se a cerca de €1,8 trilhão. No patrimônio imobiliário, o valor estimado chega a €2,56 trilhões.
Somadas às famílias cujo responsável tem entre 51 e 64 anos, essas duas faixas etárias concentram cerca de 75% da riqueza mobiliária e imobiliária italiana.
E é aqui que começa uma transformação que interessa não apenas aos economistas, mas também aos filhos e netos dessa geração.
Na última década, estima-se que aproximadamente €1,475 trilhão já tenha sido transferido entre gerações, uma média de quase €147 bilhões por ano.
O processo também envolve imóveis: cerca de três milhões de moradias teriam mudado de mãos no período, muitas delas passando a representar uma fonte de renda para os herdeiros, por meio de venda, aluguel tradicional ou atividades ligadas ao turismo.
O movimento deve ganhar força na próxima década. Com mais de 82% dos italianos proprietários de suas casas e cerca de 30% dos imóveis nas mãos de pessoas com mais de 70 anos, a expectativa é de que quase seis milhões de residências sejam transferidas entre gerações nos próximos dez a 12 anos.
Não se trata apenas de uma questão patrimonial. Uma casa herdada pode significar moradia, renda de aluguel, capital para abrir um negócio ou dinheiro disponível para consumo e investimento. Em algumas famílias, o patrimônio recebido dos pais ou avós funciona inclusive como uma espécie de proteção diante de um mercado de trabalho que oferece poucas garantias aos mais jovens.
É uma das razões pelas quais a economia italiana pode ser mais resistente do que sugerem alguns de seus indicadores. O país enfrenta problemas conhecidos de produtividade, crescimento e emprego, mas possui uma enorme reserva privada acumulada durante as décadas de expansão econômica do pós-guerra.
O fenômeno também muda a maneira de olhar para os chamados silver, os italianos com mais de 50 ou 65 anos. Durante muito tempo, o envelhecimento foi tratado principalmente como um problema para as contas públicas, a previdência e o sistema de saúde. Mas existe outro lado dessa história: são justamente essas gerações que concentram uma parcela extraordinária da riqueza nacional.
Agora, esse patrimônio começa a atravessar a ponte entre gerações. Parte continuará sendo utilizada pelos próprios idosos, que vivem mais e por mais tempo; outra parte chegará aos filhos, netos e outros familiares. Uma parcela poderá ainda ser destinada a fundações e organizações beneficentes.
É um processo quase invisível no cotidiano, mas gigantesco em escala. Enquanto a Itália discute como voltar a crescer, milhões de famílias estão silenciosamente reorganizando a propriedade de casas, economias e investimentos acumulados ao longo de quase 80 anos.
A grande questão para os próximos anos será saber o que os herdeiros farão com essa riqueza: guardar, vender, investir, consumir ou transformá-la em novos negócios. O certo é que €1,8 trilhão está prestes a mudar de mãos — e essa transferência poderá ser uma das forças econômicas mais importantes da Itália na próxima década.
