Caminhar hoje por Roma significa encontrar constantemente Augusto, Trajano, Adriano, Marco Aurélio. Seus nomes ainda estão gravados na cidade: colunas, fóruns, templos, mausoléus e monumentos continuam, quase dois mil anos depois, a contar a história de seu poder.
Com Nero, porém, acontece algo diferente.
Imperador por quase 14 anos, entre 54 e 68 d.C., ele transformou profundamente Roma e construiu um dos mais extraordinários complexos imperiais da Antiguidade. No entanto, ao observar a cidade contemporânea, é quase como se Nero nunca tivesse existido.
Para encontrá-lo, é preciso procurar debaixo de Roma.
Sua história está escondida sob construções posteriores, incorporada às fundações de monumentos erguidos depois dele e fragmentada entre os poucos vestígios arqueológicos que sobreviveram. É o resultado de um processo de apagamento político e urbanístico iniciado após sua morte.
Nero morreu em 68 d.C., depois de ser declarado inimigo público pelo Senado. Sua memória rapidamente se tornou problemática. Mais do que um apagamento total e uniforme por meio de uma única damnatio memoriae, como muitas vezes se conta, teve início um processo pelo qual a nova Roma procurou se distanciar do último imperador da dinastia júlio-claudiana.
E o símbolo mais evidente dessa transformação foi a Domus Aurea.
Após o grande incêndio de 64 d.C., Nero mandou construir, no coração da capital, uma residência de dimensões extraordinárias. Pavilhões, jardins, bosques, fontes, salas ricamente decoradas e um grande lago artificial ocupavam uma extensa área entre o Palatino, o Esquilino e o Célio.
Era um palácio concebido quase como uma paisagem dentro da própria cidade.
Depois da morte do imperador, porém, aquele espaço tornou-se politicamente insustentável.
Os Flávios compreenderam perfeitamente o valor simbólico daqueles terrenos. Vespasiano começou a devolver à cidade os espaços que Nero havia transformado em residência particular. No local onde se encontrava o grande lago da Domus Aurea seria construído o Anfiteatro Flávio, o monumento que hoje conhecemos como Coliseu.
A mensagem política era poderosa:
o espaço do imperador transformava-se no espaço do povo.
Outros setores da gigantesca residência também foram progressivamente transformados. Tito construiu suas termas na região e, no início do século II, Trajano realizou uma intervenção ainda mais radical: sobre parte da Domus Aurea foram erguidas as monumentais Termas de Trajano.
Para sustentá-las, os ambientes neronianos situados abaixo foram parcialmente soterrados e incorporados às estruturas de fundação.
Paradoxalmente, foi justamente isso que ajudou a preservá-los.
A Roma de Trajano cobriu a Roma de Nero. Mas aquilo que deveria apagar sua presença acabou preservando parte dela por quase dois mil anos.
Também o gigantesco Colosso de Nero, a estátua monumental que se erguia nas proximidades da residência imperial, foi modificado e reinterpretado pelos imperadores que vieram depois. Nero desaparecia progressivamente, enquanto suas obras eram adaptadas à nova narrativa do poder.
E talvez seja justamente esse o aspecto mais fascinante de sua história.
Nero não está completamente ausente de Roma.
Ele é uma presença escondida.
É preciso descer sob as Termas de Trajano para encontrar a Domus Aurea. É preciso imaginar um lago onde hoje se ergue o Coliseu. É preciso reconstruir mentalmente jardins, pavilhões e salas monumentais nos lugares onde, ao longo dos séculos seguintes, Roma ergueu outros edifícios.
A cidade que conhecemos foi construída, em parte, sobre sua memória.
Assim, um dos imperadores mais famosos da história tornou-se um dos menos visíveis na cidade que governou.
Roma não simplesmente destruiu Nero.
Fez algo ainda mais eficaz: construiu por cima dele.
E talvez seja justamente por isso que, ainda hoje, procurar Nero significa empreender uma das viagens mais fascinantes pela Roma escondida.

