A Justiça italiana condenou à prisão perpétua Ezio Di Levrano pelo assassinato da brasileira Ana Cristina Duarte, de 38 anos, morta em setembro de 2024 na região de Marche, no centro da Itália. A sentença, proferida pelo Tribunal de Pesaro, encerra um dos casos de feminicídio que mais comoveram a opinião pública italiana nos últimos meses, tanto pela brutalidade do crime quanto pela presença dos três filhos do casal no momento da agressão.
O crime ocorreu em Colli al Metauro, quando Ana Cristina foi atacada com diversos golpes de faca dentro de casa. Segundo a reconstituição feita pelos investigadores, o homicídio foi o desfecho de um longo histórico de violência doméstica. Os três filhos do casal, então com 6, 12 e 14 anos, presenciaram a cena.
Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Ana Cristina conheceu Di Levrano no Brasil há cerca de quinze anos. Após o casamento, mudou-se para a Itália, onde construiu sua vida e formou uma família. Com o passar dos anos, porém, a relação passou a ser marcada por episódios de violência. Em 2023, a brasileira chegou a denunciar o marido às autoridades italianas, mas posteriormente retirou a queixa, uma dinâmica frequentemente observada em situações de abuso doméstico, nas quais fatores emocionais, econômicos e familiares tornam a ruptura mais difícil.
De acordo com a acusação, Ana Cristina planejava se separar e buscava reconstruir a própria vida. O processo revelou um contexto de conflitos familiares e agressões que antecederam o assassinato. Ao anunciar a sentença, os magistrados reconheceram as agravantes relacionadas à extrema violência do crime e ao fato de ele ter ocorrido diante dos filhos menores.
Além da pena máxima prevista pelo sistema penal italiano, o chamado ergastolo, o tribunal determinou o pagamento de indenizações e a reparação civil em favor dos familiares da vítima. A decisão reconhece os danos sofridos pelos três filhos, pela mãe, pela irmã e pelos demais parentes de Ana Cristina.
O caso reacendeu na Itália o debate sobre os mecanismos de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica. Nos últimos anos, o país adotou medidas mais rígidas para combater o feminicídio e acelerar a atuação das autoridades diante de denúncias de agressão. Ainda assim, especialistas e organizações de defesa dos direitos das mulheres alertam que muitos assassinatos continuam sendo precedidos por sinais de violência já conhecidos pelas vítimas e por seu círculo próximo.
Outra questão que permanece em aberto é o futuro dos três filhos de Ana Cristina. Atualmente, as crianças seguem sob proteção das autoridades italianas enquanto a Justiça avalia a solução definitiva para a guarda. Entre as hipóteses analisadas estão a transferência para familiares maternos no Brasil ou outras medidas consideradas compatíveis com o interesse dos menores.
A advogada internacional e ex-parlamentar italiana Renata Bueno, que acompanha a família da vítima, classificou a sentença como uma resposta firme da Justiça italiana diante da gravidade do caso. Segundo ela, a condenação ao ergastolo demonstra que o tribunal reconheceu não apenas a brutalidade do assassinato, mas também todo o contexto de violência doméstica que o precedeu e o impacto causado aos três filhos que testemunharam a morte da mãe.
Bueno destacou ainda que a decisão teve alcance mais amplo do que a punição criminal, ao reconhecer oficialmente os danos sofridos pelos familiares de Ana Cristina. Para a advogada, nenhuma reparação financeira é capaz de compensar a perda e o trauma vividos pelas crianças, mas o reconhecimento judicial representa um importante gesto de responsabilização.
A ex-parlamentar afirmou também que a prioridade agora passa a ser a proteção dos três irmãos e a garantia de que possam reconstruir suas vidas em um ambiente seguro e acolhedor. Segundo ela, o caso evidencia a necessidade de fortalecer redes de apoio e mecanismos de proteção para mulheres brasileiras que vivem no exterior e enfrentam situações de vulnerabilidade longe de suas famílias.
Para Renata Bueno, a condenação representa não apenas um ato de justiça para Ana Cristina Duarte, mas também um alerta sobre a importância de identificar e interromper ciclos de violência antes que eles terminem em tragédia.
Justiça italiana condena à prisão perpétua autor do feminicídio de brasileira

