Meu retorno à Toscana – Parte 6: Florença sem filtro: os bairros que preservam a verdadeira identidade da cidade

Caros leitores,

Chegamos ao sexto capítulo da minha coluna sobre o meu retorno a Florença, no coração da Toscana. Como nos artigos anteriores, hoje vou apresentar a vocês a Florença burguesa, aquela que existe além dos roteiros turísticos tradicionais e que continua resistindo aos efeitos, muitas vezes negativos, do turismo de massa.

Para quem ainda não leu os capítulos anteriores, ao longo desta série compartilhei minhas observações, tanto positivas quanto negativas, sobre uma cidade que conheço profundamente e pela qual continuo apaixonado. Hoje vou levá-los a alguns bairros que representam a alma mais autêntica de Florença, lugares onde a vida cotidiana ainda acontece longe das multidões que ocupam o centro histórico.

O primeiro bairro sobre o qual quero falar é Campo di Marte, a região do estádio Artemio Franchi, casa da Fiorentina. A apenas vinte minutos de caminhada do centro histórico, este é um dos bairros mais verdes e agradáveis da cidade. Aqui ainda sobrevivem diversas lojas tradicionais, pequenos comércios e atividades voltadas principalmente para os moradores.

É um bairro onde ainda vê famílias caminhando tranquilamente, parando para um café ou aproveitando os parques. Os turistas são poucos e as lojas de lembranças praticamente não existem. Em seu lugar encontramos trattorias, restaurantes e padarias que preservam a verdadeira tradição gastronômica florentina.

Porque Florença não é apenas museus, monumentos e obras de arte. Como já mencionei nos artigos anteriores, aquela “dolce vita” tão sonhada por muitos visitantes está mudando gradualmente, assumindo características cada vez mais padronizadas e internacionalizadas. Franquias, estereótipos e hábitos criados para o turismo vêm substituindo algumas tradições locais autênticas.

Em Campo di Marte ainda é possível observar o cotidiano dos florentinos. A tranquilidade do bairro é interrompida apenas pelo trânsito normal da cidade, e não pelas intermináveis caravanas de turistas que percorrem o centro histórico em busca da fotografia perfeita. Principalmente durante os meses mais quentes, caminhar entre árvores e áreas verdes proporciona uma experiência completamente diferente daquela encontrada nas ruas lotadas do centro.

Aqui é possível visitar o Museu do Futebol de Coverciano, dedicado à Seleção Italiana, tetracampeã mundial, ou conhecer o estádio da Fiorentina. Também é possível descobrir as verdadeiras padarias florentinas, como a tradicional Scheggi, e saborear uma clássica schiacciata com presunto cru. Para quem gosta de sorvete, uma parada na Gelateria Badiani, na Viale dei Mille, é praticamente obrigatória.

Entre oficinas artesanais, lojas de moda, empórios gastronômicos e estabelecimentos históricos, Campo di Marte ainda oferece a oportunidade de comprar produtos autênticos e lembranças genuinamente ligadas ao território, longe da produção industrial que hoje domina grande parte do centro histórico.

O segundo bairro que gostaria de apresentar gira em torno da Via Gioberti e das famosas “Cem Lojas”. Trata-se de uma das regiões mais vivas e autênticas da cidade, um lugar que parece ter preservado a atmosfera da Florença de antigamente.

O trecho entre Borgo La Croce e Via Gioberti é especialmente apreciado pelos florentinos, tanto para fazer compras quanto para viver o dia a dia. Ali convivem oficinas artesanais, estabelecimentos comerciais, escritórios profissionais, restaurantes e bares frequentados principalmente pelos moradores.

Mesmo estando a poucos passos do centro histórico, o bairro mantém uma identidade própria. Além disso, sua proximidade com os Lungarni permite agradáveis caminhadas e atividades ao ar livre.

Ao percorrer essas ruas encontramos oficinas que produzem móveis de madeira, vitrais artísticos, cerâmicas pintadas à mão e peças de alfaiataria de alta qualidade. É um dos últimos cantos da cidade onde o artesanato continua sendo parte essencial da vida econômica e social.

Ao lado dessas oficinas estão enotecas, trattorias, cervejarias artesanais, padarias históricas, confeitarias e livrarias independentes que promovem regularmente encontros culturais e atividades para crianças. O símbolo do bairro é a magnólia da Piazza Beccaria, que há décadas acompanha a vida dos moradores e representa uma espécie de ponto de referência para esta pequena cidade dentro da cidade.

A última parada desta viagem nos leva a Borgo Ognissanti, uma rua onde tive o prazer de morar durante aproximadamente um ano. Antes da pandemia, era uma área extremamente movimentada, repleta de antiquários, lojas de cerâmica e pequenos comércios tradicionais.

Mas a lembrança mais especial que guardo está ligada ao Ristorante Pizzeria Industria, administrado pelos irmãos Massimo e Nicola De Lillo.

Com mais de quarenta anos de experiência na gastronomia, os dois irmãos construíram um restaurante onde a qualidade dos ingredientes é uma verdadeira filosofia. Os pecorinos chegam diretamente de Pienza, na província de Siena, considerada uma das capitais desse famoso queijo toscano.

Além dos clássicos da culinária toscana, como pappardelle, pici, crostini e tábuas de frios e queijos, o restaurante oferece, na minha opinião, uma das melhores pizzas de Florença.

A pizzaria é comandada por Fiorello, um pizzaiolo experiente que transformou a qualidade em sua principal marca. A massa fermenta por pelo menos vinte e quatro horas, enquanto os tomates e as mozzarellas chegam semanalmente de Nápoles.

Entre as pizzas que experimentei, guardo excelentes lembranças da Covaccino Special e da pizza branca com presunto cru, burrata, rúcula e tomates-cereja. Mas a minha favorita continua sendo a Lorik, criada em homenagem ao filho de Fiorello: uma combinação de linguiça, batatas assadas, gorgonzola e mozzarella que surpreende a cada pedaço.

O Industria também é famoso por suas tábuas de frios, pela ampla seleção de vinhos toscanos e pelos coquetéis preparados por Massimo. Não por acaso o restaurante recebeu esse nome: praticamente tudo é produzido na casa, do pão às massas e sobremesas.

Mas o que realmente torna esse lugar especial é o ambiente familiar. Depois de poucas visitas, você já se sente parte da família. Massimo sempre sabe o que recomendar e Nicola está sempre disposto a conversar e compartilhar histórias.

Ainda me lembro das muitas noites passadas ali com meu amigo Simone e dos encontros inesperados com clientes habituais, como Fabio, com quem acabei dividindo jantares que surgiram sem qualquer planejamento. Uma pizza, um filé, uma taça de vinho e uma conversa que se prolongava até tarde da noite.

Aqui ainda importam a amizade, a convivência e o prazer de estar à mesa. Durante o verão, sentar-se nas mesas externas com uma taça de vinho gelado e sentir a brisa que atravessa Borgo Ognissanti é uma das experiências mais autênticas que Florença pode oferecer.

Para mim, esta é a verdadeira Florença. Uma cidade feita de bairros vividos, lojas históricas, relações humanas e restaurateurs que ainda colocam paixão em seu trabalho.

Se você procura uma pizza preparada com ingredientes de qualidade, uma autêntica bisteca à florentina, um prato de pappardelle ou simplesmente um lugar onde possa se sentir em casa, o Ristorante Pizzeria Industria certamente merece uma visita.

Endereço: Borgo Ognissanti, 11, 50123 Florença (FI), Itália

Horários de funcionamento:

Sexta-feira: 12h às 15h30 e 18h às 23h
Sábado: 12h às 15h30 e 18h às 23h
Domingo: 12h às 15h30 e 18h às 23h
Segunda-feira: 18h às 23h
Terça-feira: 12h às 15h30 e 18h às 23h
Quarta-feira: 12h às 15h30 e 18h às 23h
Quinta-feira: 12h às 15h30 e 18h às 23h

Até a próxima!

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