Menos assassinatos, mais furtos: como a Itália ‘criminal’ mudou do 1891 pra cá

A Itália de hoje é muito diferente daquela que milhões de pessoas conheceram entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando multidões deixavam o país rumo ao Brasil, à Argentina e aos Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Naquela época, o país recém-unificado era mais pobre, mais rural e também muito mais violento.

Um novo estudo divulgado pelo Istat, o instituto nacional de estatísticas da Itália, mostra como a criminalidade, a justiça e o sistema prisional se transformaram profundamente ao longo de mais de um século. E alguns números ajudam a entender o tamanho dessa mudança.

Entre 1891 e 1895, a Itália registrava quase 2 mil homicídios por ano. Hoje, o número caiu para pouco mais de 300 casos anuais. Em termos proporcionais, a taxa de homicídios despencou de 5,9 para menos de 0,6 assassinato por 100 mil habitantes, um dos índices mais baixos da Europa.

A comparação é ainda mais interessante quando se observa o contexto histórico. No período em que milhares de italianos embarcavam para o Brasil, o país era predominantemente agrícola. Cerca de nove em cada dez pessoas viviam fora dos grandes centros urbanos, a economia era frágil e as desigualdades regionais eram profundas. A violência interpessoal, as disputas locais e os crimes ligados à pobreza eram muito mais frequentes.

Mais de um século depois, o cenário se inverteu. A Itália tornou-se um país urbano, envelhecido e altamente desenvolvido. E a criminalidade também mudou de perfil.

Segundo o levantamento do Istat, os crimes contra o patrimônio passaram a dominar as estatísticas. Se no final do século XIX eles representavam cerca de 28% dos delitos registrados, hoje ultrapassam 60%. Em outras palavras, a Itália contemporânea convive menos com crimes violentos e mais com furtos, roubos e golpes.

Essa transformação acompanha a própria evolução da sociedade. Com mais riqueza acumulada, maior urbanização e milhões de automóveis, residências e bens de consumo espalhados pelo país, surgiram novas oportunidades para a criminalidade predatória.

Os dados mostram ainda que os furtos de veículos e os furtos em residências continuam relativamente elevados em comparação com outros países europeus, embora tenham registrado forte queda nas últimas décadas graças ao avanço das tecnologias de segurança e monitoramento.

A mudança também aparece nas prisões. Logo após a unificação italiana, no século XIX, o país registrava até 270 detentos para cada 100 mil habitantes. Hoje, a taxa é menos da metade daquela observada no período pós-unificação.

Ao mesmo tempo, o sistema penitenciário passou por profundas reformas. O foco deixou de ser apenas a punição para incluir educação, formação profissional e programas de reinserção social. Ainda assim, o estudo chama atenção para um problema persistente: os índices de suicídio dentro das prisões continuam muito superiores aos registrados fora delas.

Talvez a curiosidade mais simbólica seja justamente esta: a Itália da qual partiram milhões de imigrantes rumo ao Brasil era um país onde a violência letal fazia parte do cotidiano de forma muito mais intensa do que hoje. A Itália contemporânea enfrenta outros desafios – desde furtos e fraudes até a superlotação carcerária – mas se tornou uma das sociedades mais seguras do continente europeu.

Uma transformação silenciosa que ajuda a contar, por outro ângulo, a própria história da modernização do país.

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