A Itália acordou destruída pela guerra, dividida politicamente e cheia de cicatrizes quando, em 2 de junho de 1946, milhões de pessoas foram chamadas às urnas para decidir o futuro do país. Entre ruínas, pobreza e esperança, os italianos escolheram abandonar a monarquia e transformar a Itália em uma república. Foi um dos momentos mais decisivos da história moderna europeia — e também um dos mais emocionantes.
Pela primeira vez, as mulheres italianas puderam votar em uma eleição nacional. Em cidades devastadas pelos bombardeios e em vilarejos ainda marcados pela fome do pós-guerra, filas se formaram diante das seções eleitorais. Muitas italianas chegaram às urnas usando roupas simples e carregando documentos improvisados, mas conscientes de que estavam entrando oficialmente na vida política do país.
O referendo institucional colocou frente a frente dois projetos de Itália: de um lado a monarquia da Casa de Savoia, associada por muitos ao fascismo e ao desastre da guerra; do outro, a promessa republicana de reconstrução democrática. O resultado foi apertado e revelou uma divisão geográfica que ainda hoje desperta curiosidade histórica.
O norte da Itália votou majoritariamente pela república. Regiões como Emilia-Romagna, Toscana, Piemonte e Ligúria deram ampla vantagem ao novo sistema político, influenciadas também pela forte presença da Resistência antifascista. Já o sul, incluindo Campânia, Puglia, Calábria e Sicília, permaneceu mais ligado à monarquia. Em Nápoles, por exemplo, o rei ainda era visto por muitos como símbolo de estabilidade em meio ao caos do pós-guerra.
No final da apuração, a república venceu com cerca de 54% dos votos. O rei Umberto II deixou o país poucos dias depois e partiu para o exílio em Portugal, encerrando oficialmente uma monarquia iniciada no século XIX durante a unificação italiana.
Mas o 2 de Junho não é lembrado apenas como uma data política. Para muitos italianos, ele representa o nascimento emocional da Itália contemporânea. Foi o momento em que um país destruído tentou reconstruir não apenas suas cidades, mas também sua identidade.
Daquela votação também nasceu a Assembleia Constituinte responsável por escrever a Constituição italiana, que entrou em vigor em 1948 e continua sendo a base da democracia do país até hoje.
Todos os anos, Roma se veste de verde, branco e vermelho para celebrar a data. A tradicional parada militar nos Foros Imperiais, diante do Coliseu, reúne autoridades, soldados e acrobacias aéreas da Frecce Tricolori, a esquadrilha da aeronáutica italiana que colore o céu da capital com fumaça nas cores da bandeira.
Mas longe das cerimônias oficiais, o espírito do 2 de Junho continua ligado à memória de uma Itália popular, cansada da guerra e ansiosa por recomeçar. Uma Itália que, entre escombros e sonhos, escolheu escrever uma nova história nas urnas.
Entre ruínas e esperança: como a Itália nasceu República o 2 de Junho de 1946

