Entre 1870 e 1914 partiram do Trentino-Alto Ádige cerca de 300 mil pessoas. Famílias inteiras, agricultores, artesãos e jovens sonhadores em busca de uma vida melhor. Naquela época, o Trentino ainda pertencia ao Áustria-Hungria e somente após o fim da Primeira Guerra Mundial seria anexado à Itália.
No fim do século XIX, a população trentina era de aproximadamente 380 mil habitantes. Em menos de cinquenta anos, quase um morador em cada dois deixou sua terra natal. Um dado impressionante, que explica melhor do que qualquer estatística a dureza da vida nos vales alpinos daquele período.
A maior parte embarcava rumo à América do Sul. Os principais destinos eram o Brasil e a Argentina.
Quase 80% daqueles que atravessavam o Atlântico terminavam justamente na América do Sul. O Brasil tornou-se um dos principais destinos da imigração trentina e italiana. Aqui nasceram vilarejos inteiros fundados por imigrantes vindos dos vales do Trentino. Um dos exemplos mais simbólicos é Nova Trento, no estado de Santa Catarina, fundada por imigrantes trentinos em 1875. Até hoje, o próprio nome da cidade preserva a ligação com a terra de origem.
Mas Nova Trento não foi um caso isolado. Milhares de famílias trentinas se estabeleceram nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina, contribuindo para o nascimento de colônias agrícolas, vinícolas e pequenos centros urbanos que ainda hoje mantêm profundas marcas da identidade italiana.
Os 20% restantes dos emigrantes seguiram para os Estados Unidos, em uma imigração lenta e silenciosa que também mudaria o rosto de muitas cidades americanas.
Hoje o Trentino é uma das regiões mais ricas e desenvolvidas da Itália. Trento aparece frequentemente entre as primeiras posições nos rankings de qualidade de vida, bem-estar e serviços públicos. Mas o Trentino do final do século XIX era completamente diferente.
Era uma terra montanhosa pobre, com pouquíssimas indústrias e uma agricultura frágil, dificultada pelos terrenos íngremes e pelo clima rigoroso. Muitos sobreviviam apenas do básico. As famílias eram numerosas, a terra insuficiente e as oportunidades praticamente inexistentes. Uma realidade muito distante da Lombardia, que já naquela época representava um dos motores industriais da península.
A emigração não foi apenas uma fuga da pobreza. Foi também uma enorme transformação cultural, tanto para o Trentino quanto para o Brasil.
Os trentinos levaram consigo dialetos, tradições alpinas, técnicas agrícolas, cultura do vinho, arquiteturas rurais e um forte senso de comunidade. Ainda hoje, em muitas cidades do sul do Brasil, são celebradas festas italianas, festas típicas trentinas e tradições ligadas aos antepassados que emigraram há mais de um século. Em algumas comunidades sobrevivem até palavras e sotaques derivados dos dialetos trentinos e vênetos.
A influência também aparece na gastronomia. Polenta, queijos, vinhos artesanais, embutidos e receitas alpinas se misturaram à cultura brasileira, criando uma culinária única. Em regiões como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a herança italiana tornou-se parte integrante da identidade local.
Muitos imigrantes trentinos começaram trabalhando nos campos e nas colônias agrícolas, mas ao longo das décadas contribuíram para o desenvolvimento econômico do sul do Brasil através do comércio, do artesanato, da viticultura e da pequena indústria. Algumas das áreas economicamente mais dinâmicas do sul brasileiro também nasceram graças ao trabalho dessas comunidades europeias.
Existe ainda um aspecto emocional frequentemente esquecido. Aquelas viagens duravam semanas. Milhares de pessoas deixavam montanhas e vilarejos sem saber se algum dia voltariam. Muitos nunca mais reviram a Europa. Atravessaram o oceano levando poucas malas, fotografias, rosários, sementes agrícolas e a esperança de sobreviver.
Hoje milhões de brasileiros descendem de imigrantes italianos, e uma parte importante dessas raízes vem justamente dos vales trentinos. Uma história que não pertence apenas à Itália ou ao Brasil, mas à própria identidade da imigração europeia.
E você, descende de uma família do Trentino-Alto Ádige?

