O meu retorno à Toscana (Parte 2): Amigo, onde vamos tomar um café?

Caros leitores, aqui estamos no segundo episódio do meu retorno a Florença, a minha amada cidade.

Por que esse título?

Como contei no primeiro episódio, quero falar para vocês sobre os aspectos positivos e negativos de como reencontrei a minha cidade. Uma Florença marcada pelo overtourism, pela invasão dos Airbnb e pelo turismo rápido, superficial, de quem chega e vai embora correndo.

Quero contar para vocês um episódio que vivi com um grande amigo meu, que se chama Michelangelo. Isso mesmo, como o grande artista florentino.

Dou uma passada na casa dele para um abraço. Ele também, assim como eu, viveu e continua vivendo o centro histórico de Florença. Assim que terminamos de nos abraçar, surge a clássica pergunta:

“Francesco, onde vamos tomar um café?”

Nos olhamos por dez segundos sem dizer uma palavra.

Então eu respondo:

“Então você também percebeu aquilo que eu vi.”

Resposta seca:

“Sim.”

No centro de Florença desapareceram os bares tradicionais. Aqueles bares dos estudantes, dos escritórios, do encontro cotidiano. Ainda existem os grandes cafés históricos, como Gilli e Paszkowski, mas hoje trabalham quase exclusivamente com turistas. E os preços? Arrancam seu couro vivo.

Decidimos então tentar ir ao “nosso” bar, aquele em frente à universidade, onde conheci Michelangelo. Mesmo sabendo, lá no fundo, que ele também tinha mudado.

Caros leitores, daquele bar que antes fervilhava de estudantes, professores e conversas intermináveis, quase não restava mais nada.

Sentamos às mesas externas e quase nos sentimos constrangidos, como se estivéssemos ocupando espaço demais ao pedir apenas dois simples cafés expressos.

Pois é. Essa é a sensação que hoje se vive em Florença: a sensação de que você precisa consumir mais.

Naquele lugar onde passei grande parte da minha vida universitária, agora vendem omeletes, cappuccinos de meio litro, bagels salgados, avocado toast, sanduíches de todos os tipos, bacon, chocolates elaborados. Café da manhã à americana.

O clássico café da manhã italiano, cappuccino e cornetto, praticamente não existe mais. Não dá lucro suficiente, não é rentável. Melhor apostar no turista, no estrangeiro, em quem gasta mais.

Tomamos os dois expressos rapidamente e nos levantamos logo em seguida. Não estávamos bem ali. Estávamos cercados por uma multidão de estudantes americanos e, paradoxalmente, nos sentíamos deslocados… dentro da nossa própria casa.

Florença, que possui cerca de 360 mil habitantes, abriga impressionantes 17 escolas americanas. Dezessete. Quase todas surgidas nos últimos anos.

Vocês podem me dizer:

“Francesco, isso é progresso. Os tempos mudam.”

E é verdade. Em parte, isso pode até ser aceito.

Mas estou aqui para dizer uma coisa: não pensem que vir para a Itália significa automaticamente respirar a dolce vita. Se vocês realmente querem viver essa atmosfera, precisam sair dos centros históricos das grandes cidades de arte.

Vá para o interior, para as colinas, para os pequenos vilarejos, para o mar. Porque hoje muitos centros históricos parecem quase uma Disneyland na Flórida: cheios de franquias, padronizados, construídos para um consumo rápido.

Pode parecer exagero, mas quem fala com vocês nasceu aqui. O turista chega com os olhos de turista, e nas férias tudo parece mais bonito.

Nos levantamos daquela mesa rapidamente porque já não existia mais aquela tranquilidade, aquela lentidão, aquela dolce vita que muitos de vocês imaginam. Existia o modelo “coma, pague e vá embora”.

O cliente passou a ser visto como uma nota de dinheiro. Já não é mais acolhido, já não se conversa mais. Tudo é rápido, frio, quase asséptico.

E isso não faz parte de mim. Também não faz parte do meu amigo.

Sabe o que mais me causa estranheza?

Quando eu era criança, morar no centro era considerado algo bonito, fascinante, quase “cool”. Hoje é exatamente o contrário, quem mora nos bairros afastados do centro histórico é privilegiado. Ainda vive uma atmosfera de bairro, feita de moradores, famílias, florentinos de verdade.

E quero que você entenda uma coisa: em Florença já não é mais “cool” tomar um café na Piazza della Signoria ou na Piazza della Repubblica. Nem tomar um spritz na Ponte Vecchio.

Hoje, o especial é ir para os becos escondidos, aqueles que ninguém conhece, longe das massas guiadas pelos algoritmos do Instagram.

Por sorte, quem salvou minhas tardes foi meu amigo de infância e de escola Francesco Guerriero, bartender experiente, que me fez redescobrir o prazer de um excelente café e de coquetéis preparados como devem ser. Tudo isso no histórico Bar Sabani, no bairro San Lorenzo, um lugar quase escondido dentro de uma loja de artigos de couro, mas capaz de oferecer uma atmosfera autêntica e fora do tempo.

Você realmente acha que os reels de influenciadores estrangeiros, promovendo trattorias e gelaterias, mostram a verdadeira Florença?

Eles mostram aquilo pelo qual foram pagos.

Se você quer conhecer a verdadeira Florença, aquela que ainda resiste… então me siga nessa jornada.


Aqui deixo alguns bares e cafés tradicionais de bairro.

  • Caffè Petrarca Endereço: Piazzale di Porta Romana, 6/red, 50124 Florença
  • Caffè Lietta Endereço: Piazza della Libertà, 6/7/8 Rosso, 50129 Florença FI
  • Caffè Libertà Endereço: Piazza della Libertà, 27R, 50129 Florença FI, Itália
  • Gelateria Pasticceria Badiani Endereço: Viale dei Mille, 20/r, 50131 Florença FI, Itália
  • Bottega di Pasticceria Endereço: Lungarno Francesco Ferrucci, 9c Rosso, 50126 Florença FI, Itália
  • Bar Pappagallo Endereço: Via Fra’ Giovanni Angelico, 1R, 50121 Florença FI, Itália
  • Sabani Leather Piazza di San Lorenzo, 12/R, 50123 Firenze FI,

Francesco Sibilla.

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