Poucas histórias representam tão bem a conexão econômica entre Brasil e Itália quanto aquela construída a partir da energia, da imigração e da capacidade de transformar recursos naturais em desenvolvimento sustentável.
Nascido em Itatiba do Sul, pequena cidade do norte do Rio Grande do Sul moldada pela presença de imigrantes italianos que ajudaram a construir a identidade produtiva da região, Erasmo Carlos Battistella é brasileiro e também cidadão italiano, herança familiar que sempre reforçou a percepção de que os dois países compartilham muito mais do que laços culturais: compartilham vocação empreendedora, capacidade industrial e uma visão estratégica sobre o futuro.
Foi nesse contexto que ele construí sua trajetória empresarial no setor de energias renováveis. Há 21 anos fundou em Passo Fundo, a Be8, hoje uma das líderes brasileiras na produção de biodiesel, com atuação também em etanol, biocombustíveis avançados e operações internacionais na Suíça e no Paraguai.
Mais recentemente, aceitou também o desafio de assumir a presidência da Câmara de Comércio Italiana do Rio Grande do Sul, com o objetivo de ampliar ainda mais as conexões econômicas entre Brasil e Itália. O momento exige uma relação bilateral mais intensa, baseada em inovação, investimentos e integração produtiva. Agronegócio, indústria metalmecânica, vinho, proteína animal, soja, biocombustíveis e tecnologia são setores nos quais essa parceria pode alcançar um novo patamar estratégico.
Essa percepção ficou ainda mais evidente durante a participação da Be8 na recente Hannover Messe, uma das maiores feiras industriais do mundo, realizada na Alemanha. Ali, o Brasil apresentou ao mercado internacional algo que vai muito além de uma matriz energética alternativa: apresentou um modelo concreto de transição sustentável baseado naquilo que hoje chamamos de “adição energética de baixo carbono”.
A experiência brasileira é particularmente relevante porque combina segurança energética, competitividade econômica e produção de alimentos. Desde os anos 1970, com o Proálcool, criado como resposta à crise global do petróleo, o país desenvolveu um conhecimento técnico e industrial que transformou os biocombustíveis em uma solução real para os desafios climáticos e geopolíticos do século XXI.
Hoje, etanol e biodiesel já demonstram, na prática, que podem ser considerados os verdadeiros “combustíveis da paz”. Não apenas porque reduzem emissões e descarbonizam a economia, mas porque ajudam a preservar estabilidade social, ampliar a oferta de alimentos e reduzir dependências estratégicas em um cenário internacional cada vez mais marcado por conflitos e insegurança energética.
O impacto econômico do biodiesel brasileiro ilustra essa transformação. O programa equivale ambientalmente ao plantio de 1,3 bilhão de árvores, gera cerca de 2,4 milhões de empregos e movimenta aproximadamente R$ 9 bilhões em compras provenientes de mais de 300 mil agricultores familiares. Além disso, desde 2008, o Brasil deixou de importar bilhões de litros de diesel fóssil, fortalecendo sua soberania energética e reduzindo sua exposição às oscilações internacionais do petróleo. Atualmente, são 59 usinas distribuídas em 15 estados brasileiros.
Mas a nova economia verde vai além do etanol e do biodiesel. O país avança rapidamente em projetos ligados ao biogás, biometano e combustível sustentável de aviação, consolidando um ecossistema energético capaz de posicionar o Brasil entre os protagonistas globais da transição energética.
Foi justamente essa mensagem que levou à Europa, especialmente à Itália: o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia pode se transformar em uma plataforma histórica de crescimento compartilhado. Mais do que ampliar fluxos comerciais, trata-se de construir uma agenda comum de investimentos em rotas tecnológicas de baixo carbono, capazes de garantir competitividade industrial, segurança energética e cumprimento das metas climáticas globais.
A transição energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Tornou-se uma questão econômica, industrial e geopolítica. Países que souberem integrar inovação, sustentabilidade e produção terão vantagens estratégicas nas próximas décadas.
Nesse cenário, Brasil e Itália possuem todas as condições para construir uma aliança sólida baseada em energia limpa, tecnologia e desenvolvimento sustentável. Em tempos de instabilidade global, os biocombustíveis podem representar não apenas uma alternativa energética, mas um instrumento concreto de estabilidade, crescimento econômico e cooperação internacional.
São, de fato, os verdadeiros combustíveis da paz.

