Há uma outra Itália, silenciosa, que não aparece nos feeds de viagem nem nas capas de revista. Uma Itália de ruas vazias, casas fechadas e praças onde o tempo parece ter parado. É a Itália dos borghi, pequenos vilarejos sobretudo no sul e nas áreas internas, que há décadas perdem habitantes, serviços e futuro. Um fenômeno grave que preocupa muito, que todavia não é apenas historia de declínio.
Segundo um estudo do jornal La Repubblica, o país está reagindo com uma série de medidas concretas, criativas e, às vezes, surpreendentes para evitar que esses lugares desapareçam.
O despovoamento não acontece de um dia para o outro. Ele chega devagar. Primeiro vão embora os jovens, depois fecham as escolas, os mercados, os bares. E depois correio, bancos, todos os serviços à população que se tornam não rentáveis. O que sobra são idosos e serviços cada vez mais raros.
Em muitos vilarejos, o fechamento de uma simples mercearia muda tudo. Sem um lugar para comprar pão ou encontrar alguém, a vida social desaparece. Foi o que aconteceu em uma pequena localidade da Sardenha, onde o último mercado fechou. A resposta do município foi direta: oferecer um espaço comercial gratuitamente por três anos, sem impostos locais e com apoio administrativo para quem quiser abrir um novo negócio.
Entre todas as iniciativas, a mais famosa é a das casas a 1 euro. Imóveis abandonados são vendidos por um valor simbólico, com a obrigação de serem reformados. O modelo nasceu como solução prática para recuperar patrimônio e atrair moradores, mas acabou se tornando um fenômeno global. Em Bisaccia, no sul do país, a proposta ganhou força porque o município é dono direto de dezenas de casas abandonadas após terremotos históricos. Isso simplifica o processo e atrai compradores, inclusive estrangeiros.
Em outras regiões, como o Vêneto, o modelo foi adaptado. Em Recoaro Terme, imóveis são oferecidos com critérios que favorecem jovens, novos residentes e quem deseja abrir atividades turísticas ou artesanais. Já em Farini, o município atua como intermediário para recuperar casas privadas abandonadas.
Nem todas as soluções passam pela venda simbólica. Algumas regiões apostam em incentivos financeiros diretos. Na província de Trentino, foi lançado um programa com recursos a fundo perdido para quem compra ou reforma imóveis em áreas em risco de abandono. O interesse foi imediato, com centenas de pedidos e novos moradores chegando.
Em outros casos, a prioridade é manter serviços básicos. Em uma cidade da região das Marcas, a prefeitura chegou a assumir diretamente a gestão do único posto de combustível, depois que nenhum empresário quis continuar a atividade. Sem esse serviço, o isolamento do território seria inevitável.
O problema demográfico também está no centro das políticas públicas. Na Sardenha, o governo regional criou bônus para cada filho nascido ou adotado em municípios com menos de 5 mil habitantes, ou para famílias que decidam se mudar para esses locais. A medida envolve dezenas de milhões de euros e tenta reverter uma tendência clara: sem novas gerações, os vilarejos simplesmente deixam de existir.
Essas iniciativas mostram uma mudança profunda. Durante anos, os borghi foram vistos apenas como destinos turísticos. Agora, o foco é outro: fazer com que as pessoas voltem a viver nesses lugares. Não basta atrair visitantes por alguns dias. É preciso reconstruir comunidades inteiras.
A Itália continua sendo um dos países mais visitados do mundo, mas seu futuro também depende desses pequenos territórios espalhados entre montanhas e campos. Ali estão tradições, dialetos, modos de vida e histórias que não existem em nenhum outro lugar. Salvar os borghi não é apenas uma questão econômica. É preservar uma identidade. E, hoje, entre casas a um euro, lojas gratuitas e incentivos para famílias, essa Itália invisível tenta, passo a passo, voltar a existir.


