A safra da uva de 2026 começa a ser colhida no Rio Grande do Sul sob um clima de otimismo que vai além dos números do vinhedo. Entre produtores gaúchos, especialmente na Serra, a vindima deste ano reafirma uma história profundamente ligada à imigração italiana e ao papel que essas tradições desempenham até hoje na vitivinicultura brasileira.
Na vinícola boutique Lidio Carraro, a colheita segue até março com sinais considerados muito positivos. O ciclo vegetativo apresentou regularidade, sanidade das plantas e bom equilíbrio produtivo. “Tivemos um comportamento climático favorável em todos os aspectos até o momento, o que indica que podemos ter uma safra com excelentes resultados”, afirma Juliano Carraro, diretor comercial da vinícola. Mesmo eventos climáticos extremos registrados em outras regiões do Sul, como o granizo, não atingiram os vinhedos da casa.
Do ponto de vista enológico, a leitura também é animadora. Giovanni Carraro, enólogo da Lidio Carraro, destaca que a videira se desenvolveu sem sobressaltos, respeitando os tempos naturais da maturação. “A videira se desenvolveu nos tempos certos, com uma velocidade média de maturação. Não tivemos períodos prolongados de temperaturas abaixo da média, o que é muito positivo”, explica. Esse ritmo tende a favorecer uvas com bagas menores e menor vigor vegetativo, condição associada a vinhos mais concentrados, tanto no perfil aromático quanto na estrutura polifenólica.
Para as variedades de colheita mais tardia, previstas para março, ainda é cedo para conclusões definitivas. Mesmo assim, a expectativa geral é de uma safra acima da média em qualidade e, em muitos casos, também em produtividade. A cautela permanece quando o assunto é a eventual classificação como “Grande Vindima”, selo reservado apenas a anos excepcionais na história da vinícola. “Essa definição só pode ser feita no dia da colheita. São muitos fatores envolvidos”, pondera Giovanni.
Mais do que um bom ano agrícola, a vindima 2026 dialoga com um legado cultural que conecta Brasil e Itália há mais de um século. A vitivinicultura gaúcha nasceu com os imigrantes italianos que chegaram à região a partir do fim do século XIX, trazendo consigo o conhecimento da videira, o hábito do vinho à mesa e uma relação quase ritual com o tempo da colheita. Esse patrimônio imaterial segue vivo em famílias produtoras, nos métodos de cultivo e na forma como o vinho é entendido como expressão de território e identidade.
A própria trajetória da Lidio Carraro reflete esse elo entre tradição italiana e projeção internacional. Em 2014, a vinícola foi responsável pelos vinhos oficiais da Copa do Mundo no Brasil, levando rótulos gaúchos a um evento global e reforçando o diálogo entre herança europeia e produção brasileira contemporânea.
Em 2026, ano que também marca mais uma Copa do Mundo, a simbologia se renova. Enquanto o futebol volta a mobilizar paixões, nos vinhedos o foco segue sendo a constância, a técnica e o respeito ao ritmo da natureza. Para os produtores gaúchos, a safra que se desenha não é apenas promissora do ponto de vista enológico, mas também mais um capítulo de uma história construída entre duas culturas, unidas pelo vinho, pela imigração e pela capacidade de transformar tradição em futuro.
Vindima 2026 no Sul do Brasil reforça herança italiana e aposta em vinhos de excelência

