Sassello, uma pequena cidade da província de Savona, na região da Ligúria, assinou um acordo com o município de São João Batista, no Estado brasileiro de Santa Catarina. Durante as migrações italianas rumo ao gigante verde, em meados do século XIX, muitos habitantes de Sassello, conhecidos como sassellesi, foram pioneiros da emigração para o Novo Continente. Quase 200 anos se passaram e, depois de todo esse tempo, o município de Sassello promoveu um acordo institucional com São João Batista, no Estado de Santa Catarina.
Esse domingo, o prefeito de Sassello, Gian Marco Scasso, colocou sua assinatura no acordo. A parceria já havia sido assinada dois anos antes pelo colega carioca Juliano Peixer e por Charles Cavilha Boni, diretor de Relações Internacionais da Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil, juntamente com o então comissário prefeito Giorgio Ariberto Moranzoni.
A pequena, mas festiva comunidade brasileira celebrou o acordo durante a Festa Ligure de Nova Itália, que recordou, 190 anos depois, os pioneiros que fundaram a Colônia Nova Itália. A colônia foi fundada em 1836 por um grupo de imigrantes italianos e foram 186 as pessoas consideradas fundadoras desse primeiro núcleo.
No Brasil, alguns sobrenomes ainda contam uma história que começou do outro lado do Oceano Atlântico. Badano, Zunino e Caviglia estão entre os que mais aparecem nas famílias de origem italiana e, para Sassello, representam muito mais do que simples nomes: são marcas vivas de uma ligação que atravessa quase dois séculos de história.
«No Brasil, os sobrenomes de origem italiana mais difundidos são justamente Badano, Zunino e Caviglia, que representam, de certa forma, a “marca” das históricas famílias de Sassello», explica o prefeito Scasso, que, para a ocasião, enviou uma mensagem em vídeo acompanhada por imagens das festas e das tradições da cidade.
Essa ligação, porém, não pertence apenas à história coletiva. O próprio prefeito recorda suas duas avós, que tinham os sobrenomes Zunino e Caviglia, além de um tio-avô que, como milhares de italianos de sua geração, fez as malas e partiu para o Brasil em busca de um futuro diferente.
Quando a associação Adanpib entrou em contato com o município de Sassello para propor um acordo de colaboração, a administração decidiu aprofundar essa história, reunir informações e reconstruir os vínculos que unem as duas comunidades.
«Depois de verificar e reunir toda a documentação necessária, decidimos aderir», conta Scasso. «As migrações da Itália para o Brasil já haviam começado no século XIX, muito antes de o fenômeno atingir as grandes dimensões que teria posteriormente em direção aos Estados Unidos e à Argentina, sobretudo a partir de 1915».
Eram anos em que partir para as Américas significava deixar para trás uma vida conhecida para enfrentar um futuro feito de esperanças, incertezas e grandes sacrifícios. Muitos emigrantes conseguiram construir uma nova existência, contribuindo para o crescimento econômico das comunidades que os acolheram. Alguns desenvolveram atividades empresariais, construíram fábricas e se tornaram figuras importantes para a economia local.
Mas a história que une Sassello ao Brasil tem raízes ainda mais antigas. Pesquisas genealógicas recentes, realizadas por meio da análise de antigos registros preservados nos arquivos municipais e paroquiais, confirmaram que, já em 1836, pelo menos duas famílias partiram do interior da província de Savona.
Depois de atravessarem o Oceano Atlântico, essas famílias chegaram ao Sul do Brasil, em uma região localizada um pouco ao Sul de Curitiba, onde fundaram a Colônia Nova Itália. Um pequeno núcleo destinado a crescer ao longo das décadas até se transformar no atual município de São João Batista, no Estado de Santa Catarina.
«Esse assentamento é oficialmente reconhecido como o berço do primeiro núcleo colonial organizado da imigração italiana no Brasil», explicam as historiadoras Marcia Peixer e Caroline Cavilha dos Santos Hashimoto, que reconstruíram os acontecimentos ligados ao nascimento da colônia e deram vida a um importante projeto de valorização da memória das famílias, das mulheres pioneiras e da herança histórica deixada pela Colônia Nova Itália nos dois países.
É justamente dessa história que nasce hoje a nova relação entre São João Batista e Sassello. O acordo de colaboração terá uma duração inicial de cinco anos, mas, nas intenções de seus promotores, não pretende se limitar a uma simples assinatura ou a um gesto simbólico.
«O objetivo é construir projetos concretos e consolidar, nos próximos dois ou quatro anos, a relação com Sassello por meio de iniciativas culturais, turísticas e científicas capazes de produzir resultados concretos para os dois territórios», destaca Charles Cavilha Boni, diretor de Relações Internacionais da associação.
Muitos detalhes daquela distante migração se perderam inevitavelmente ao longo do tempo, mas alguns elementos ainda hoje alimentam dúvidas e curiosidades. Até mesmo a escolha do nome da colônia pode não ter sido casual. São João Batista significa, em italiano, San Giovanni Battista, o mesmo santo padroeiro de Sassello, a quem também é dedicada a igreja mais antiga da cidade. Uma coincidência ou um sinal deixado, talvez de forma inconsciente, por aqueles que atravessaram o oceano levando consigo não apenas algumas malas, mas também a memória de sua terra.
«Imagino os medos, as esperanças e todas as incertezas que agitavam o coração daqueles primeiros emigrantes», acrescenta o prefeito Scasso. «Eles partiram do Reino da Sardenha e atravessaram o oceano em busca de um futuro melhor. Foi uma viagem longa e difícil, mas conseguiram fundar uma nova comunidade sem deixar para trás aquilo que eram».
Levaram consigo sua cultura, suas tradições, suas lembranças e aqueles sobrenomes que ainda hoje permitem seguir os rastros de uma história iniciada há quase dois séculos. Tiveram a coragem de se afastar de suas próprias raízes sem jamais esquecê-las. E talvez seja justamente esse o significado mais profundo da ligação que hoje une Sassello e São João Batista: uma ponte construída por homens e mulheres que atravessaram o oceano e que continua, ainda hoje, a unir gerações, famílias e dois países.

