Roberto Baggio, quedas e renascimentos de um campeão

Para o Brasil, foi uma alegria ver aquele pênalti chutado para fora, em um dia escaldante em Pasadena, no dia 17 de julho de 1994. Para a Itália, foi um choque.

O jogador símbolo da Itália, Bola de Ouro de 1993, talvez um dos personagens mais famosos da época, viu naquele instante o início de um pesadelo e, para muitos, também o começo da lenta decadência do futebol italiano.

«Senti como se tivesse traído um país inteiro. Em toda a minha carreira, nunca havia mandado um pênalti tão alto por cima do travessão. Já tinha acertado o travessão nos tempos de Vicenza, mas naquela ocasião a bola acabou entrando. Naquele momento eu só queria desaparecer. A vergonha era enorme, algo que permanece dentro de você mesmo depois de muitos anos. Com o tempo você aprende a carregar isso consigo, mas certas feridas nunca desaparecem completamente».

As palavras de Roberto Baggio, dadas durante uma entrevista.

E continua:

«Ainda hoje tenho dificuldade em me perdoar completamente. Sei muito bem que o futebol também é feito de erros e que um pênalti pode ser desperdiçado, mas aquele momento ficou marcado profundamente dentro de mim. A imagem da minha cabeça abaixada se tornou o símbolo daquela final para muitos italianos. E, no entanto, não havia nada ensaiado naquele gesto: era apenas o peso do que eu sentia naquele instante. Talvez, sem perceber, fosse a minha maneira de pedir desculpas a um país inteiro que acreditava em nós. Quando era garoto, imaginava muitas vezes uma final de Copa do Mundo contra o Brasil. Era um dos meus maiores sonhos. Ainda hoje, porém, quando volto mentalmente àquele pênalti, existem emoções que realmente não consigo explicar».

Poucos meses antes da final da Copa do Mundo, o Brasil estava em choque.

O símbolo do Brasil, Ayrton Senna, havia perdido a vida na Itália, no circuito de Imola. O herói brasileiro, o orgulho de um país inteiro, não existia mais. Para Roberto Baggio, talvez aquele pênalti tenha sido quase desviado espiritualmente pelo campeão da Fórmula 1: uma espécie de redenção para o sofrimento do povo brasileiro, uma vingança simbólica contra a nação onde o ídolo encontrou a morte.

A dor por aquele pênalti perdido foi tão grande que a religião escolhida por Baggio nos anos 80, o Budismo, tornou-se ainda mais importante e fundamental para encontrar paz e conforto.

De Arrigo Sacchi, ele ainda se recorda perfeitamente daquela substituição contra a Noruega na Copa do Mundo de 1994. Uma cena que ficou gravada na memória coletiva do futebol italiano.

«Pagliuca havia sido expulso e, do ponto de vista tático, talvez até fizesse sentido tirar eu em vez de Casiraghi, que era um atacante fisicamente mais adequado para aquele momento da partida. Porém, no dia anterior, Sacchi me chamou em seu quarto e me disse uma frase que me marcou profundamente: “Para nós, você é aquilo que Maradona representa para a Argentina”. Essas palavras ficaram dentro de mim. Quando vi meu número no painel da substituição, senti uma enorme contradição. Pensei que, se eu realmente fosse tão importante assim, então um jogador como Maradona jamais seria substituído. Minha reação foi impulsiva, nascida mais da decepção do que da raiva».

Baggio chegou à final contra o Brasil praticamente destruído fisicamente.

«Depois da semifinal contra a Bulgária, na manhã seguinte tive que ir ao dentista porque estava com o lábio aberto e metade de um dente quebrado por causa de uma cotovelada sofrida durante a partida. Reconstruíram meu dente, mas lembro que, no segundo tempo, escondi o dano com um chiclete, quase por vergonha. Na véspera da final, em Los Angeles, chegaram até a me fazer testar chutes dentro de uma sala do hotel para entender em que condições eu estava. Eu estava esgotado, física e mentalmente, assim como grande parte da equipe. O caminho até a final havia sido duríssimo. Em certo momento, cheguei até a pensar que minha presença em campo não era considerada indispensável».

Sobre a relação com Sacchi e a gestão da final, Baggio escolhe palavras medidas, mas cheias de significado.

«Não seria correto atribuir intenções precisas aos outros, especialmente tantos anos depois. Mas eu percebia uma situação ambígua. Tive a sensação de que uma vitória sem mim valorizaria ainda mais o coletivo. E talvez, caso as coisas dessem errado, minha ausência pudesse servir como uma explicação conveniente. Foram pensamentos que passaram pela minha cabeça naqueles dias».

Até a ausência na Copa do Mundo de 2002 continua sendo uma ferida aberta.

«Para voltar a ser competitivo, trabalhei de maneira quase obsessiva. Lembro de ter dito à minha esposa Andreina para esquecer, por um tempo, que tinha um marido, porque eu vivia apenas para aquele objetivo. Depois veio a ligação de Trapattoni. Eu estava na varanda de casa, em Caldogno, junto da minha filha Valentina. Nunca vou esquecer o tom da voz dele quando disse: “Não sinto segurança em te levar, tenho medo de que você se machuque”. Eu, por outro lado, estava disposto a arriscar tudo para viver outra Copa do Mundo. Até uma possível lesão, naquele momento, eu teria aceitado».

Quando perguntam sobre os treinadores com quem teve melhor relação, a resposta é direta.

«Sempre me coloquei à disposição da equipe e dos treinadores. Tive uma boa relação principalmente com aqueles técnicos que não sentiam necessidade de provar algo através do confronto com seus jogadores. Sempre dei tudo de mim e acredito que o respeito recebido dos companheiros ao longo da carreira prova isso».

Sobre Alessandro Del Piero, frequentemente apontado como seu grande rival na Juventus, Baggio desmonta qualquer narrativa de conflito.

«Nunca existiu uma rivalidade verdadeira entre nós. Sempre enxerguei Alessandro quase como um irmão mais novo. Vi ele crescer, amadurecer, tornar-se um campeão. Era um rapaz sério, educado e com qualidades extraordinárias. Nos vestiários, conversávamos frequentemente em dialeto veneziano, e isso nos aproximava muito. Isso acontece até hoje quando nos encontramos. A camisa número 10 pesa, claro, mas nunca deveria dividir as pessoas».

Falando sobre Ronaldo, aparece toda a sensibilidade de Baggio diante da dor de outros campeões.

«Quando ele lesionou gravemente o joelho, sofri de verdade por ele. Eu sabia o que significava sentir o próprio corpo te trair de repente. Ronaldo era um fenômeno autêntico, um talento irrepetível. Talvez justamente por isso a dor dele tenha me atingido ainda mais».

Entre as lembranças mais carinhosas está a de Carlo Mazzone e seu labrador Miele.

«Mazzone não queria animais no campo de treinamento, acho que tinha medo. Um dia viu meu cachorro correndo pelo gramado e começou a gritar em dialeto romano: “Ô, de quem é esse cachorro?”. Quando disseram que era meu, mudou imediatamente de atitude: “Então deem um biscoito pra ele e deixem ele brincar!”. Ele era assim. Esse episódio resume perfeitamente nossa relação humana».

Por fim, Baggio aborda a crise do futebol italiano, após três Copas do Mundo consecutivas sem a presença da seleção italiana.

«Os problemas são muitos. As crianças já não jogam mais nas ruas como antigamente e no campeonato italiano existem cada vez menos jogadores italianos protagonistas. Quando você é obrigado a procurar atletas em outros lugares e naturalizá-los, significa que algo no sistema deixou de funcionar. É preciso criar condições reais para valorizar os jovens italianos. O talento ainda existe, mas precisa ser protegido, acompanhado e, acima de tudo, é necessário ter coragem de dar oportunidades».

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