qui. fev 26th, 2026

O Sul ‘tecnológico’ surpreende e cresce mais que o Norte da Itália



Por décadas, falar do sul da Itália significava repetir a mesma narrativa: menos emprego, menos indústria, mais jovens indo embora. Mas algo começou a mudar. Pela primeira vez desde a unificação do país, alguns distritos produtivos do Mezzogiorno estão mais bem posicionados nas cadeias globais de valor do que áreas tradicionais do Centro-Norte.

Não é uma virada total. Nem um milagre econômico. Mas é um movimento real, medido por dados e visível nas cidades. Os novos protagonistas estão em torno de Napoli, Bari e Catania. Nessas áreas, setores como tecnologia digital, aeroespacial, farmacêutico, semicondutores e energias verdes crescem acima da média nacional.

Em Taranto, por exemplo, conhecida por décadas pela siderúrgica Ilva, hoje surgem iniciativas ligadas a startups e inovação. Fundos de investimento começam a apostar na cidade como alternativa de baixo custo e alta qualificação, atraindo profissionais que antes migravam apenas para Milão ou para o exterior.

O fenômeno não é isolado. Segundo estudos recentes, o setor digital cresce mais rapidamente no sul do que na média italiana desde 2014. Só em Bari, multinacionais de tecnologia ajudaram a criar milhares de empregos nos últimos anos.
Parte da explicação está nos custos mais baixos, tanto salariais quanto imobiliários. Para empresas de tecnologia, que não dependem de grandes infraestruturas físicas, trabalhar no sul pode ser muito mais vantajoso.

Mas há outro fator decisivo: universidades e centros de pesquisa. Em Napoli, a Apple mantém uma das poucas academias de desenvolvedores do mundo, impulsionando um ecossistema de inovação ao redor da Universidade Federico II. Empresas globais abriram polos de software, cibersegurança e consultoria na região. Ao mesmo tempo, a Campânia já aparece entre as regiões com maior número de startups inovadoras da Itália.

Entre 2019 e 2024, as exportações do sul cresceram mais do que as do norte, ainda que partindo de uma base menor. Há também empresas locais que se tornaram casos de sucesso, especialmente em café, cosméticos e farmacêutica. Hoje, a economia do sul já supera a do Centro da Itália em termos de produto interno bruto, algo impensável até poucos anos atrás.

Apesar do dinamismo, o sul ainda enfrenta enormes desafios. O desemprego é alto, a renda média é significativamente menor que a do Centro-Norte e milhões de jovens continuam deixando a região em busca de oportunidades. Desde 2009, quase três milhões de pessoas emigraram do Mezzogiorno. É um paradoxo: crescimento econômico convivendo com esvaziamento demográfico.

O que se vê é o surgimento de uma nova geração empreendedora no sul da Itália. Profissionais que querem distância de velhos estigmas e apostam em inovação, tecnologia e integração global. Ainda não é uma revolução completa. Mas é, sem dúvida, uma mudança histórica. Pela primeira vez, o sul não aparece apenas como problema estrutural da Itália, mas como parte da solução. Apergunta é inevitável: será que estamos diante de um novo mapa econômico italiano?

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *