O silêncio do Caffè Greco: história, mitos e o renascimento anunciado do salão mais famoso de Roma

No coração da Via dei Condotti, entre vitrines de luxo internacional e o fluxo contínuo do turismo global, existe um lugar que, por mais de dois séculos, representou muito mais do que um simples café: o Antico Caffè Greco. Fundado em 1760 pelo levantino Nicola della Maddalena, é considerado o café histórico mais antigo da capital italiana e o segundo mais antigo da Itália, depois do Caffè Florian.

Entrar no Caffè Greco sempre significou atravessar um fragmento de Roma suspenso no tempo. Suas salas estreitas e profundas, iluminadas por luzes suaves, guardam mais de trezentas obras entre pinturas, bustos, espelhos antigos e objetos históricos. As paredes em tom carmim, os veludos desgastados, as mesas de mármore e as boiseries do século XIX transformaram o local em uma espécie de museu vivo da cultura europeia. A célebre Sala Vermelha tornou-se um dos símbolos estéticos do café, ao lado da Sala Omnibus, repleta de medalhões e lembranças dos artistas que passaram por ali.

Poucos lugares no mundo podem se orgulhar de uma lista tão impressionante de frequentadores. Entre as mesas do Caffè Greco passaram Johann Wolfgang von Goethe, John Keats, Lord Byron, Stendhal, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Franz Liszt, Richard Wagner, além de Gabriele D’Annunzio, Giacomo Leopardi, Renato Guttuso e Federico Fellini. Durante o Grand Tour, o café era parada obrigatória para artistas, aristocratas e intelectuais europeus em visita à Cidade Eterna.

Nos últimos anos, porém, o Caffè Greco tornou-se também símbolo da fragilidade dos lugares históricos italianos diante das dinâmicas imobiliárias contemporâneas. A longa batalha judicial entre os antigos gestores e o Ospedale Israelitico di Roma durou quase uma década. No centro da disputa estava o valor do aluguel, considerado muito baixo em relação aos atuais preços da Via Condotti.

O momento mais dramático chegou entre setembro e outubro de 2025, quando o local foi definitivamente fechado e lacrado. O episódio provocou forte impacto emocional em Roma e no cenário cultural internacional. Muitos enxergaram naquele fechamento o fim simbólico de uma certa ideia de cidade: menos literária, menos lenta, menos autêntica.

O encerramento também foi acompanhado de polêmicas ligadas aos móveis e obras históricas. Algumas pinturas, esculturas e peças antigas foram temporariamente transferidas para depósitos externos, gerando novas tensões sobre a preservação do patrimônio artístico do café.

Hoje, porém, o futuro do Caffè Greco parece novamente em movimento. Segundo informações atualizadas até maio de 2026, o Ospedale Israelitico di Roma trabalha em uma nova gestão dentro do plano de recuperação econômica da instituição. Diversas propostas para a locação do espaço ultrapassaram 1,2 milhão de euros anuais e entre os interessados aparece também o grupo milanês ligado ao histórico restaurante Savini.

A propriedade declarou que o objetivo principal continua sendo a reabertura do histórico café, preservando sua identidade, seus vínculos históricos e sua função cultural. No momento, entretanto, ainda não existe uma data oficial definitiva para a reabertura. As hipóteses mais prováveis falam em uma possível retomada das atividades durante o segundo semestre de 2026, após os trabalhos de restauração e a definição do novo contrato de gestão.

Enquanto isso, as portas fechadas do Caffè Greco continuam contando uma história profundamente romana: a de uma cidade suspensa entre memória e transformação, onde até mesmo um simples café pode se tornar espelho do tempo.

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