O piloto italiano Andrea Kimi Antonelli venceu neste domingo o Grande Prêmio da Itália depois de uma recuperação extraordinária, partindo do fundo do grid e ultrapassando o então líder George Russell nas voltas finais, para o triunfo do público de Monza, literalmente em delírio. Sessenta anos depois de Ludovico Scarfiotti, em 1966, um italiano volta a vencer o GP de casa.
E o faz justamente em um domingo em que o país inteiro esperava por um momento de glória como esse: dividido entre o tradicional amor pela Ferrari e a torcida pelo novo herói nacional, de apenas 20 anos, que passou de promessa futura a lenda viva em um dia.
O mar vermelho acabou se rendendo ao piloto Antonelli, mas com alegria e satisfação. A Ferrari não conseguiu entregar aos seus torcedores a vitória que eles esperavam. Mas, neste domingo, o coração tomou conta das arquibancadas acabou encontrando outra paixão.
Uma corrida de tirar o fôlego
A corrida, que começou com a Ferrari largando em posição privilegiada, se transformou rapidamente em um drama para a equipe italiana. Charles Leclerc, que havia herdado o terceiro lugar no grid depois da punição aplicada a Oscar Piastri, abandonou ainda na segunda volta, depois de perder o controle da Ferrari na saída da Parabólica. O acidente provocou bandeira vermelha e interrompeu a prova. Lewis Hamilton, companheiro de equipe de Leclerc, conseguiu escapar do incidente e continuou na disputa. Mas, enquanto a Ferrari perdia uma de suas duas cartas, do fundo do grid começava a corrida que mudaria completamente a história do domingo.
Antonelli havia se classificado em sétimo no sábado, mas uma troca de componentes da unidade de potência o obrigou a largar na última fila. No grid oficial, o italiano aparecia na 20ª posição. Era uma penalidade calculada pela Mercedes: o novo motor deveria oferecer desempenho suficiente para compensar a perda de posições em um circuito como Monza, onde velocidade e eficiência nas longas retas são fundamentais.
Quando a corrida recomeçou depois da bandeira vermelha, Antonelli já havia recuperado posições. A Mercedes tinha apostado nele justamente porque sabia que o ritmo do carro poderia permitir uma recuperação rápida. E foi o que aconteceu. O italiano avançou pelo pelotão em uma sequência de ultrapassagens que transformou uma largada do fundo em uma disputa pela vitória. Enquanto Russell assumia a liderança após o acidente de Leclerc, Antonelli continuava ganhando terreno.
A estratégia também foi decisiva. Em um momento de Virtual Safety Car, Antonelli entrou nos boxes e conseguiu aproveitar a situação para realizar sua parada em condições muito mais favoráveis do que Russell. O companheiro de equipe permaneceu na pista com pneus mais desgastados, enquanto o italiano voltava à caça pela liderança. Nas voltas finais, Monza passou a assistir a uma disputa que ninguém imaginava antes da largada: Antonelli contra Russell, Mercedes contra Mercedes, um italiano contra o próprio companheiro de equipe pelo primeiro lugar no GP da Itália.
Antonelli tentou a ultrapassagem, cometeu um pequeno erro e chegou a escapar para a área de brita. Conseguiu recuperar o carro e voltou imediatamente à perseguição. Russell, com os pneus cada vez mais desgastados, já não conseguia defender a posição da mesma maneira. Até que veio o momento decisivo. Antonelli passou Russell e assumiu a liderança. Monza explodiu.
Homenagens emocionantes ao longo do fim de semana
Antes mesmo da largada, porém, Antonelli já havia decidido que seu GP de casa teria uma identidade especial. Para Monza, ele preparou um capacete inspirado em Valentino Rossi, seu ídolo e também uma figura próxima de sua trajetória. Tanto que, no verso, Rossi aparece carregando o próprio Antonelli nos ombros. O capacete virou também uma espécie de declaração de amor à Itália. O desenho traz as cores da bandeira italiana e uma série de referências à cultura do país: pizza, espaguete, café, futebol, bandolim e até, ironicamente, o famoso bidê.
Do outro lado da pista, a própria Ferrari havia preparado seu tributo à história. Neste ano, a Scuderia decidiu marcar os 30 anos da primeira vitória de Michael Schumacher no GP da Itália, conquistada em Monza em 1996. Os carros de Leclerc e Hamilton receberam uma decoração especial inspirada na Ferrari 310 daquele período, com as sete estrelas associadas aos títulos mundiais do alemão e o símbolo “MS”. E não foi apenas uma homenagem gráfica.
Durante o fim de semana, algumas das Ferrari mais importantes da carreira de Schumacher voltaram a Monza. Entre elas estava a lendária F2002, uma das máquinas mais dominantes da história da Fórmula 1, que foi levada novamente à pista por Sebastian Vettel. A ideia era fazer com que o público revivesse uma parte daquela época em que Schumacher e a Ferrari transformaram Monza em um dos grandes palcos da história da equipe italiana.
Era, portanto, um GP carregado de símbolos: Schumacher, Ferrari, Rossi, o tricolor e, no centro de tudo, um jovem italiano que chegava a Monza como líder do campeonato.
Nasce um herói, a Itália dos motores volta a sonhar
A bandeira quadriculada confirmou o que parecia impossível algumas horas antes: Andrea Kimi Antonelli venceu o Grande Prêmio da Itália. Para Antonelli, foi a sétima vitória de sua carreira na Fórmula 1 e, acima de tudo, uma vitória histórica para o automobilismo italiano. Desde Scarfiotti, em 1966, nenhum piloto italiano havia conseguido vencer o GP de casa. Foram seis décadas de espera.
E há ainda outro detalhe que torna o momento especial: Antonelli chegou a Monza como líder do campeonato mundial, o primeiro italiano a ocupar essa posição no GP da Itália desde 1953. A vitória agora aumenta ainda mais sua vantagem na luta pelo título. E a frase do jovem italiano resume perfeitamente o que aconteceu no Templo da Velocidade: “um sonho que se realiza.”

