Existem carreiras que parecem lineares apenas para quem observa de fora. Por dentro, elas são feitas de desvios, escolhas silenciosas e decisões que surgem quando se entende que talento sozinho não basta, se não encontrar o espaço certo para existir. Giovanni Ongaro tem 21 anos, nasceu em Clusone, na província de Bergamo, e nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026 não competirá com o uniforme azul da Itália, mas com o verde-ouro do Brasil.
Uma notícia que surpreende apenas à primeira vista. Ongaro não é um atleta “emprestado”, nem uma bandeira escolhida por conveniência. Ele é o resultado natural de um percurso que cruza identidade, oportunidade e visão. O Brasil é o país de sua mãe, mas também é o país que lhe permitiu continuar dentro do sonho quando o nível sobe e o espaço se estreita. A convocação oficial para os Jogos, que começam em 6 de fevereiro de 2026, chega após um caminho já marcado por etapas importantes, como a participação no Mundial de Saalbach 2025.
Ao falar da emoção da convocação olímpica, Ongaro evita palavras grandiosas. Fala de um sonho que toma forma, de um objetivo alcançado que é ao mesmo tempo pequeno e enorme, de um orgulho duplo: o do atleta e o do filho que representa também suas raízes maternas. Competir pelo Brasil, diz, vai além da pista. É uma forma de dar um sentido mais amplo à própria carreira.
A decisão de mudar de nacionalidade esportiva amadureceu nos anos da categoria Jovens, depois das primeiras temporadas competindo pela Itália. Permanecer em Clusone, treinar nas pistas de casa, crescer tecnicamente já não bastava. Era preciso ter espaço, continuidade, possibilidades reais de chegar ao profissionalismo. Nesse sentido, o Brasil não foi um plano B, mas uma aceleração.
Hoje, o movimento brasileiro de esportes de inverno deixou de ser curiosidade. Tornou-se uma realidade em expansão, impulsionada por uma figura capaz de mudar percepções como Lucas Pinheiro Braathen. Resultados, personalidade e visibilidade colocaram o esqui brasileiro no mapa global. Ao seu lado, Ongaro não se sente figurante, mas parte de um processo coletivo.
Os dois já dividiram a experiência do Mundial de Saalbach. Não apenas as provas, mas o cotidiano: treinos, hotel, refeições, espera. Foi ali que Ongaro entendeu o que significa estar no mundo dos grandes. Ele descreve Braathen como alguém diferente da imagem televisiva: menos showman, mais companheiro de equipe, atento aos outros. Como quando, durante as qualificações do Mundial, a equipe de Lucas acompanhava em tempo real seus resultados no site da FIS e o aplaudiu ao voltar para o hotel. Um detalhe que diz muito.
Milano-Cortina 2026 também será um retorno para casa. Ongaro competirá em Bormio, na pista Stelvio que conhece profundamente. Já treinou ali, já competiu ali. Desta vez, porém, sua família estará nas arquibancadas, a poucos quilômetros de Clusone. Competir “em casa” com outra bandeira no uniforme não é contradição: é síntese.
O nível olímpico é outro mundo em relação ao circuito FIS ou à Copa Europa. Mudam as expectativas, o cuidado com materiais, a atenção ao atleta. A pressão não diminui, mas se organiza. Ongaro descreve essa passagem como natural e necessária para entender até onde pode chegar.
O Brasil chegará a Milano-Cortina com a maior delegação de esportes de inverno de sua história. Um sinal claro de ambição e estrutura. Depois dos Jogos, o objetivo de Ongaro é explícito: tentar entrar de forma estável no circuito da Copa do Mundo e continuar representando o Brasil no mais alto nível.
Braathen também olha adiante. Falou de seu amor pela Itália, por Milão, por essa mistura cultural que sente próxima de sua identidade meio norueguesa, meio brasileira. Os Navigli, o Parco Sempione, a energia urbana como espaço mental. E um objetivo direto: a Copa do Mundo e o ouro olímpico.
Duas histórias diferentes, cruzadas na mesma neve.
E uma bandeira verde-ouro que, nas pistas italianas, conta um novo jeito de viver o esporte.

