Muito além da Via Francigena: Itália aposta nos caminhos para reinventar o turismo

O Ministério do Turismo anunciou a criação de uma governança nacional única para a rede dos Cammini d’Italia, reunindo Estado e regiões italianas em uma estrutura permanente para coordenar o desenvolvimento desses percursos. O objetivo é padronizar critérios de qualidade, segurança, sinalização e acessibilidade, além de criar um banco de dados oficial que certificará os itinerários reconhecidos em todo o país.
A iniciativa representa um novo passo na estratégia italiana de fortalecer o chamado turismo lento, um segmento que cresce continuamente na Europa e atrai viajantes interessados em experiências mais autênticas, sustentáveis e ligadas ao território.
Os chamados cammini vão muito além das tradicionais rotas religiosas. Embora a Via Francigena, antigo caminho medieval que liga Canterbury, na Inglaterra, até Roma, continue sendo o percurso mais conhecido internacionalmente, a rede italiana reúne dezenas de itinerários completamente diferentes entre si.
Há caminhos históricos, como o Sentiero della Pace, que percorre antigas áreas da Primeira Guerra Mundial, rotas culturais, como o Sentiero del Dürer, inspirado na passagem do pintor renascentista Albrecht Dürer pelos Alpes, trajetos naturais como a Alta Via dei Monti Liguri, que atravessa montanhas entre o Piemonte e a Ligúria, percursos costeiros no Salento, no extremo sul da Puglia, e até roteiros ligados ao imaginário popular, como o Cammino dei Briganti, que percorre antigas áreas marcadas pela história do banditismo no centro da Itália.
O que une todos esses caminhos é uma filosofia de viagem completamente diferente do turismo tradicional. Em vez de visitar vários destinos em poucos dias, o viajante permanece mais tempo nas pequenas comunidades, utiliza hospedagens familiares, consome produtos locais, conhece tradições regionais e distribui renda por territórios que normalmente ficam fora dos grandes circuitos internacionais.
Essa mudança também responde a outro desafio enfrentado pela Itália: o excesso de visitantes em cidades como Roma, Veneza e Florença durante a alta temporada. Ao incentivar novos destinos e percursos, o país busca reduzir a pressão sobre os centros históricos mais famosos e, ao mesmo tempo, criar oportunidades econômicas para centenas de pequenas cidades espalhadas pelo interior.
Nos últimos anos, o perfil desse turista também mudou. Muitos caminham por motivos espirituais, outros pela busca de contato com a natureza, pela gastronomia ou simplesmente pelo prazer de desacelerar. Há quem percorra centenas de quilômetros a pé ou de bicicleta, transformando a viagem em uma experiência de descoberta pessoal e cultural.
A nova estrutura coordenada pelo Ministério do Turismo pretende justamente dar maior organização a esse universo, estabelecendo padrões nacionais que facilitem o planejamento das viagens e garantam maior qualidade da infraestrutura ao longo dos percursos.
Para o visitante brasileiro, acostumado a associar a Itália aos grandes monumentos e museus, os Cammini d’Italia oferecem uma perspectiva diferente do país. São viagens em que o destino importa tanto quanto o caminho percorrido — uma forma de conhecer uma Itália menos conhecida, feita de pequenas comunidades, paisagens preservadas e histórias que continuam vivas muito além dos cartões-postais.
