Ao longo de mais de um século, o Brasil e a Itália construíram uma das relações migratórias mais profundas da história contemporânea. Entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, milhões de italianos atravessaram o Oceano Atlântico em busca de novas oportunidades, transformando o Brasil em um dos principais destinos da emigração italiana. Esses homens, mulheres e crianças levaram consigo muito mais do que malas: trouxeram a língua, a cultura, as tradições, a gastronomia, os valores familiares e o espírito de trabalho que ajudaram a moldar a identidade de inúmeras cidades e comunidades brasileiras. Ainda hoje, estima-se que cerca de 30 milhões de brasileiros sejam descendentes de italianos, um legado que continua vivo nas famílias, nas festas populares, na culinária, nos sobrenomes e na memória coletiva.
É justamente para preservar essa herança e dar voz às histórias que atravessaram gerações que o Jornal Italia inaugura uma nova série de reportagens dedicada às famílias italianas que emigraram para o Brasil. A cada edição, contaremos a trajetória de uma família, reconstruindo suas origens na Itália, a viagem rumo ao Brasil, os desafios enfrentados e o legado deixado às novas gerações. Um espaço dedicado à memória, à identidade e aos fortes laços que continuam unindo Itália e Brasil.
Há histórias que atravessam o tempo e que, mesmo depois de mais de um século, continuam vivas por meio das lembranças de filhos, netos e bisnetos. São trajetórias que não pertencem apenas a uma única família, mas representam o destino compartilhado por milhares de italianos que foram obrigados a deixar sua terra natal em busca de um futuro melhor.
Entre elas está a da família Benini, uma das muitas que, na segunda metade do século XIX, deixou o Vêneto rumo ao Brasil, contribuindo para a formação das grandes comunidades ítalo-brasileiras que ainda hoje preservam a língua, as tradições e a cultura italiana.
Quem resgata essa extraordinária história é Matheus Benini, cidadão brasileiro de origem italiana que há vários anos vive no Vêneto, na cidade de Piazzola sul Brenta. Embora tenha nascido e crescido no Brasil, Matheus sempre sentiu o desejo de compreender melhor suas origens e reconstruir a trajetória da família que, há mais de 150 anos, atravessou o Oceano Atlântico para iniciar uma nova vida.
Sua pesquisa nasceu da vontade de dar um rosto aos próprios antepassados e reconstruir uma memória familiar transmitida de geração em geração. Para isso, contou com os relatos de sua mãe, Ilva Gava Benini, e com um precioso manuscrito preservado pela família, escrito pelo padre Máximo Benini, no qual estão reunidas lembranças, testemunhos e acontecimentos que marcaram a história dos Benini ao longo das décadas.
A jornada de Matheus ganha, assim, um significado profundamente simbólico. Se seus antepassados partiram da Itália para construir o futuro na América do Sul, hoje ele realiza o caminho inverso, retornando à terra onde tudo começou para reconstruir a própria identidade.
Atualmente, Matheus trabalha como chef de cozinha e consultor comercial de uma empresa da província de Pádua especializada na fabricação de grelhas profissionais para o setor de gastronomia. A profissão o leva frequentemente a viajar entre Itália, Espanha, Portugal e Brasil, colocando-o em contato com diferentes culturas e tradições gastronômicas.
Apesar de manter uma carreira internacional, a busca pelas próprias raízes continua sendo um dos aspectos mais importantes de sua vida pessoal. Compreender de onde veio sua família significa, para ele, compreender também uma parte essencial da própria identidade.
As origens da família Benini
As pesquisas genealógicas levaram a família de volta à província de Belluno, no município de Cesiomaggiore, aos pés das Dolomitas.
Durante as investigações surgiu, porém, um detalhe que torna essa história ainda mais fascinante. O trisavô Matteo Benini teria nascido em Veneza de pais desconhecidos. Segundo a tradição familiar, ele foi posteriormente adotado e levado para Cesiomaggiore, onde passou a infância e constituiu sua família.
Foi justamente dessa pequena localidade da província de Belluno que teve início uma das inúmeras histórias de imigração que marcaram profundamente a Itália na segunda metade do século XIX.
A Itália que levava à emigração
Nos anos que se seguiram à Unificação Italiana, grande parte das áreas rurais do Vêneto enfrentava uma realidade extremamente difícil. A agricultura produzia colheitas modestas, havia escassez de trabalho e muitas famílias sobreviviam graças a uma economia de subsistência.
As oportunidades eram limitadas e milhares de famílias passaram a enxergar esperança nos programas de colonização promovidos pelo Brasil, que ofereciam terras agrícolas para cultivo em amplas regiões ainda pouco povoadas do Rio Grande do Sul.
Foi nesse contexto que Matteo Benini e sua esposa, Giovanna De Paoli, tomaram uma decisão que mudaria para sempre o destino da família.
A viagem rumo a Gênova
Em 1876, Matteo, Giovanna e seus filhos deixaram Cesiomaggiore juntamente com outros emigrantes que seguiam em direção ao porto de Gênova.
Hoje esse percurso pode ser feito em poucas horas de automóvel. Naquela época, porém, representava uma verdadeira aventura. Não existiam automóveis, rodovias nem uma malha ferroviária ampla como a atual. As famílias viajavam em carroças puxadas por cavalos ou bois, levando consigo tudo o que possuíam: alguns móveis, ferramentas de trabalho, roupas, objetos religiosos e os utensílios indispensáveis para iniciar uma nova vida do outro lado do oceano. É difícil imaginar, nos dias de hoje, o que significava percorrer centenas de quilômetros por estradas de terra, cruzando montanhas e vales com crianças pequenas, idosos e poucos recursos financeiros. Aquela viagem podia durar semanas.
Cada etapa trazia novos desafios: encontrar abrigo para passar a noite, conseguir água, alimento e assistência, cuidar dos animais e proteger os poucos bens que ainda restavam. A cada quilômetro percorrido, aumentava a distância em relação ao lar, com a consciência de que, muito provavelmente, jamais voltariam a vê-lo.
A espera no porto de Gênova
Depois de chegar a Gênova, a família Benini precisou esperar durante um longo período até conseguir embarcar no navio com destino à América do Sul.
O embarque não acontecia imediatamente. As companhias marítimas organizavam as partidas conforme a disponibilidade das embarcações e os procedimentos administrativos da época. Enquanto isso, milhares de emigrantes permaneciam durante semanas no porto da Ligúria, vivendo muitas vezes em condições precárias.
Para sustentar a família, Matteo realizou trabalhos temporários e, como aconteceu com muitos outros emigrantes, foi obrigado a vender ou trocar parte dos objetos que havia levado consigo. Muitos deles possuíam enorme valor sentimental, mas a necessidade de conseguir dinheiro para sobreviver tornava esses sacrifícios inevitáveis.
Somente ao longo de 1877 chegou o momento tão esperado: o embarque no navio que levaria a família Benini ao Brasil.
À sua frente estava uma travessia de várias semanas pelo Oceano Atlântico. Para trás ficavam o Vêneto, as montanhas da província de Belluno, os familiares, os amigos e uma vida que provavelmente nunca mais voltariam a ver.
Para Matteo e Giovanna, aquela viagem representava muito mais do que uma simples mudança de país. Era um verdadeiro salto no desconhecido, sustentado pela esperança de oferecer aos filhos um futuro que a Itália daquele período já não era capaz de garantir.
Não perca a continuação dessa trajetória! Acompanhe o Jornal Itália para ler a parte dois. Até logo

