dom. fev 15th, 2026

Mercado Central de Florença: quando a cidade fazia as compras, vivia e se revelou ao mundo

No início, o Mercado Central não falava aos visitantes. Falava aos florentinos.
A quem saía de casa ao amanhecer para comprar tripa, verduras, carne boa. A quem vivia o bairro de San Lorenzo não como cenário, mas como necessidade cotidiana. Depois vieram o tempo, o turismo, o mundo. E o mercado aprendeu a evoluir sem perder a própria voz.

Quem sai da estação Santa Maria Novella e, em vez de seguir o fluxo natural em direção ao Duomo, desvia lateralmente entrando na via Sant’Antonio, entra em outra Florença. Mais áspera, mais verdadeira. É o bairro de San Lorenzo, o bairro dos Medici e das classes populares, dos vendedores ambulantes, das pensões econômicas, da compra e venda diária. Um bairro onde, como escrevia L. Borghese, em Florença arte e tripa são boas vizinhas.

No centro desse microcosmo pulsa o Mercado Central de Florença, um edifício que não nasceu para impressionar, mas para servir. E, ainda assim, acaba fazendo as duas coisas.

A praça que hoje conhecemos não é eterna. É fruto de uma precisa visão urbana: estamos em 1866, Florença acaba de se tornar Capital da Itália. O Município inicia um grande plano de renovação urbana e expropria os terrenos dos Camaldolenses de San Lorenzo. O projeto do Novo Mercado é confiado ao arquiteto Giuseppe Mengoni, o mesmo autor da Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão.

Mengoni olha para Paris, para as Halles: ferro e vidro, modularidade, luz, modernidade. Mas não trai Florença. Integra a estrutura com um embasamento em bugnato, arcadas que falam a linguagem dos palácios florentinos, decorações em ferro com o lírio da cidade. Assim nasce uma grande hall coberta de aproximadamente 5.000 metros quadrados, inaugurada em maio de 1874 com a grande Exposição de Horticultura. A capital, entretanto, já havia sido transferida para Roma. O mercado fica. E espera.

Espera anos difíceis, momentos de abandono, depois o relançamento, a iluminação a gás com 800 tochas, reformas e transformações. Sempre sem deixar de ser aquilo que sempre foi: um lugar de vida. Um ponto de encontro. Um ruído contínuo feito de vozes, sotaques, negociações, conselhos não solicitados, mas preciosos.

Entrar hoje pelas imponentes entradas oitocentistas de ferro e vidro significa ser envolvido por esse burburinho antigo que resiste ao tempo. Florentinos que fazem as compras como sempre fizeram. Turistas que observam, fotografam, tentam compreender. Dois mundos que se cruzam sem se chocar.

Durante décadas, o mercado serviu quase exclusivamente aos moradores da cidade. Depois veio o boom do turismo e, com ele, a necessidade de mudar de pele sem mudar de alma. É assim que, em 2014, para celebrar os 140 anos do edifício, o primeiro andar é repensado: nasce o Mercado Central como o conhecemos hoje.

Hoje, no primeiro andar, convivem mais de 20 botteghe gastronômicas, selecionadas, independentes, artesanais. Não um food court anônimo, mas um mosaico de cozinhas, histórias e tradições reinterpretadas. Do lampredotto à pizza, da massa fresca aos doces, cada balcão conta um pedaço da Itália e de Florença sem transformá-la em museu.

O Mercado Central torna-se assim um lugar de encontro cultural além de comercial. Surgem eventos, colaborações, iniciativas que levam o mercado para fora de suas paredes, para dentro do tecido vivo da cidade. Um mercado que não sofre a modernidade, mas a negocia. Que não persegue modas, mas as filtra. Que permanece popular sem se tornar folclórico.

É um espaço de memória e de presente. Onde o saber rural encontra o ser metropolitano. Onde a autenticidade não é apenas qualidade do produto, mas relação humana. Conselho dado no balcão. Receita transmitida. Confiança construída ao longo do tempo.

O Mercado Central não se tornou algo diferente de si mesmo. Tornou-se maior. Mais aberto. Mais consciente. E continua, todos os dias, a fazer aquilo que sempre fez: fazer Florença viver.

Informações úteis

Mercato Centrale Firenze (Site)
Piazza del Mercato Centrale, Bairro San Lorenzo –Florença

Funcionamento:
Domingo a Quinta-feira: 9:00 – 23:00
Sexta-feira e Sábado: 9:00 – 24:00

Como chegar
De trem: 900 metros da estação Santa Maria Novella
Ônibus: linhas 1, 6, 11, 12, 14, 17, 20, 22, 23, 36, 37, C2, C4
Bonde (Tram): T1 Leonardo, T2 Vespucci
Do aeroporto: táxi ou transporte público até a estação Santa Maria Novella
A pé: poucos minutos do Duomo, da Piazza San Marco e da Fortezza da Basso

Estacionamento
Mercato Centrale (estacionamento subterrâneo conveniado, com acesso direto)
Estação Santa Maria Novella (5 minutos a pé)
Fortezza da Basso (10 minutos a pé) Autorimessa Luna (5 minutos a pé)

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