Merano or Meran view from Tappeiner promenade. Trentino Alto Adige Sud Tyrol, Italy. Europe.
Há cidades que parecem ter sido feitas para desacelerar. Merano, no Alto Adige, é uma delas. Às margens do rio Passirio, cercada pelas montanhas e marcada por jardins, edifícios elegantes e antigos hotéis, a cidade vem atraindo cada vez mais visitantes italianos. No Hotel Terme Merano, os hóspedes italianos já representam quase metade da clientela, um dado particularmente significativo para uma cidade historicamente muito ligada aos turistas dos países de língua alemã.

A explicação pode estar justamente na personalidade singular de Merano. A cidade combina uma atmosfera centro-europeia, herdada de seu passado austro-húngaro, com uma paisagem alpina que, em alguns pontos, parece surpreendentemente mediterrânea. É possível caminhar entre palmeiras, agaves e ciprestes enquanto, ao fundo, aparecem montanhas com mais de 3 mil metros de altitude.

Essa mistura também está presente na arquitetura. No centro histórico, cafés, hotéis e edifícios em estilo liberty lembram a época em que Merano se tornou um dos destinos preferidos da aristocracia europeia para férias e tratamentos. No século XIX, a cidade ganhou fama graças ao clima considerado particularmente favorável e às chamadas curas climáticas, que atraíam visitantes de várias partes do Império Austro-Húngaro e de outros países europeus.

A passagem de Elisabeth da Áustria, a famosa Sissi, ajudou a transformar Merano em um destino internacional. A imperatriz esteve várias vezes na região e também passou temporadas no Castelo Trauttmansdorff, que hoje abriga um dos jardins botânicos mais conhecidos do Alto Adige.

O turismo de wellness que hoje faz parte da identidade de Merano, portanto, tem raízes muito antigas. A diferença é que as antigas curas deram lugar a um conceito mais amplo de bem-estar, com termas, spas, tratamentos, gastronomia e atividades ao ar livre.

As Terme di Merano, localizadas no coração da cidade, são hoje uma das principais referências desse modelo. O complexo reúne piscinas internas e externas, áreas de relaxamento e tratamentos, enquanto os hotéis da região incorporam cada vez mais estruturas próprias de spa.

No Hotel Terme Merano, por exemplo, o conceito é levado para dentro da própria hospedagem. O estabelecimento possui uma área de spa no rooftop, com piscina aquecida ao ar livre e vista panorâmica para a cidade e as montanhas, além de uma segunda área de wellness no jardim. Um acesso interno permite chegar diretamente às termas sem precisar sair do hotel.

É uma forma contemporânea de recuperar uma tradição que ajudou a construir a fama de Merano: viajar para a cidade não apenas para conhecer um lugar, mas também para cuidar de si.

Mas limitar Merano às termas seria perder uma parte importante da experiência. A cidade é compacta e pode ser explorada facilmente a pé.
Uma caminhada pelo centro leva aos Portici, as antigas galerias comerciais que atravessam o núcleo medieval, ao Duomo de San Nicolò e ao Kurhaus, edifício monumental que se tornou um dos símbolos da antiga vocação turística da cidade.

À beira do Passirio, as diferentes promenades mostram outra característica de Merano. A Passeggiata d’Inverno, protegida das temperaturas mais baixas, e a Passeggiata Gilf acompanham o rio entre jardins e áreas verdes. Já a Passeggiata Tappeiner, construída no século XIX e batizada em homenagem ao médico Franz Tappeiner, sobe pela encosta e oferece uma das melhores vistas sobre a cidade.

O percurso é quase uma pequena aula de geografia. A vegetação inclui espécies típicas de regiões mais quentes, enquanto as montanhas dominam o horizonte. Esse microclima particular é um dos elementos que ajudaram a tornar Merano conhecida como uma cidade alpina com características mediterrâneas.

Uma visita ao Castel Trauttmansdorff ajuda a entender melhor essa relação entre clima, natureza e turismo. Ao redor do castelo estão os jardins botânicos, organizados em dezenas de ambientes que reproduzem diferentes paisagens do mundo, dos espaços mediterrâneos às florestas e aos ambientes alpinos.

O castelo também abriga o Touriseum, dedicado à história do turismo no Alto Adige. É uma escolha simbólica: o local onde Sissi passou temporadas hoje conta justamente como as viagens para essa parte dos Alpes se transformaram, ao longo dos séculos, de privilégio aristocrático em uma atividade turística muito mais ampla.

E ainda existe uma curiosidade arquitetônica. Nos jardins, uma das plataformas panorâmicas, conhecida como Binocolo, foi projetada por Matteo Thun, o mesmo arquiteto responsável pelo projeto do Hotel Terme Merano.

Merano também funciona como ponto de partida para conhecer outras partes do Alto Adige. Bolzano fica a pouco mais de 30 quilômetros e pode ser alcançada facilmente de trem.

Além do centro histórico e dos tradicionais pórticos, a cidade guarda uma das descobertas arqueológicas mais famosas da Europa: Ötzi, a múmia encontrada em 1991 nos Alpes, na fronteira entre Itália e Áustria.
Ötzi viveu há mais de 5 mil anos, durante a Idade do Cobre. O gelo preservou não apenas seu corpo, mas também parte de seus objetos e roupas, permitindo aos pesquisadores reconstruir detalhes surpreendentes da vida de um homem que viveu muito antes de existir a atual divisão política dos Alpes.

É justamente essa variedade que ajuda a explicar o crescente interesse italiano por Merano. A cidade oferece o conforto de uma tradição termal centenária, mas também cultura, natureza, gastronomia, arquitetura e acesso direto às montanhas.

No fim, talvez seja esse o verdadeiro charme de Merano. Pode-se chegar pelas termas, mas é difícil permanecer apenas nelas. Basta sair do hotel, atravessar o centro, seguir o Passirio ou subir a Tappeiner para perceber que o bem-estar, nessa cidade, não está apenas na água quente: está também no ritmo da caminhada, na paisagem e na sensação de estar simultaneamente nos Alpes e às portas do Mediterrâneo.



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