qua. fev 4th, 2026

Juventude italiana e trabalho: por que tantos pensam em buscar o futuro fora



Há um sentimento silencioso, mas cada vez mais difundido, entre os jovens italianos: a ideia de que o futuro pode estar em outro país. Mais da metade das pessoas entre 18 e 34 anos considera seriamente a possibilidade de viver no exterior por pelo menos três meses para trabalhar. Não como aventura, mas como estratégia. O dado, revelado por uma pesquisa recente do Observatório Jovens do Instituto G. Toniolo em parceria com a Ipsos, ajuda a entender por que a Itália deixou de convencer boa parte de sua nova geração.

O que chama atenção é que esse percentual é mais alto do que o registrado em outros grandes países europeus, como Alemanha, França, Espanha e Reino Unido. A mobilidade internacional já faz parte do horizonte mental dos jovens em toda a Europa, mas, no caso italiano, o desejo de partir ultrapassa a linha simbólica da metade da geração. É um sinal de inquietação, mas também de avaliação racional das oportunidades disponíveis.

Para muitos jovens, sair da Itália deixou de ser exceção e passou a ser uma opção “normal”. Apenas uma minoria descarta totalmente a ideia de trabalhar fora. Ainda assim, a Itália se diferencia por um detalhe revelador: é o único país analisado em que as respostas “provavelmente sim” e “com certeza sim” somam mais de 50%. O recado implícito é duro. Só pouco mais de um em cada dez jovens italianos acredita que o país lembra oferece, no conjunto, mais chances de realização pessoal do que outras nações europeias.

A Alemanha surge como principal polo de atração. Mais de 70% dos jovens italianos enxergam ali oportunidades superiores, especialmente no mercado de trabalho e na estabilidade profissional. O contraste fica ainda mais forte quando observado pelo outro lado: nenhum dos países analisados vê a Itália como destino preferencial para construir um projeto de vida. Trata-se de um déficit de atratividade que vai além da economia e toca a estrutura social.

Muito se fala em “fuga de cérebros”, mas os dados mostram que a decisão de sair é menos romântica do que parece. Pesam mais os fatores que empurram para fora do que os que puxam para fora. Falta de oportunidades, dificuldade de reconhecimento profissional, fragilidade do sistema de bem-estar social e acesso limitado a direitos são apontados como razões centrais. A busca por experiências internacionais, novas culturas ou idiomas continua presente, mas em segundo plano.

Nesse cenário, a questão de gênero se destaca. As mulheres jovens são as que mais percebem vantagens em deixar a Itália, sobretudo quando avaliam temas como direitos civis, serviços públicos e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A carência de políticas de apoio à maternidade, à conciliação entre trabalho e família e à estabilidade de renda pesa mais fortemente sobre elas, influenciando escolhas que vão muito além da carreira.

Quando projetam o próprio futuro, a fragilidade das expectativas se torna ainda mais evidente. Menos de um terço dos jovens italianos se vê com segurança profissional aos 45 anos. A incerteza aumenta entre aqueles com menor escolaridade, mas cresce também entre os mais novos, em comparação com pesquisas anteriores. E mesmo quando o trabalho é considerado provável, a diferença entre imaginar-se na Itália ou no exterior é marcante: fora do país, os jovens esperam empregos mais satisfatórios e salários mais adequados.

Para o público brasileiro, especialmente descendentes de italianos, esse movimento ajuda a explicar por que a Itália, historicamente terra de imigração, volta a ser também um país de saída. Não se trata apenas de números, mas de percepções, expectativas e desigualdades que pesam nas escolhas individuais. A “valise na mão” deixou de ser símbolo de aventura e passou a representar, para muitos jovens italianos, uma tentativa concreta de construir o futuro que não conseguem enxergar dentro de casa.

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