Da paisagem rural dominada por campos agrícolas às cidades cada vez mais populosas e aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Um novo estudo do Istat, o Instituto Nacional de Estatísticas da Itália, traça um retrato fascinante das transformações ambientais, energéticas e territoriais do país ao longo do último século e mostra como a Itália de hoje é muito diferente daquela conhecida pelas gerações dos avós e bisavós.
O levantamento faz parte da série Storie di dati – Le trasformazioni dell’Italia e revela mudanças profundas na forma como os italianos ocupam o território, produzem energia e enfrentam os desafios climáticos.
Em 1925, cerca de 70% do território italiano era destinado à agricultura. Cem anos depois, essa participação caiu para menos de 40%. Em sentido contrário, as áreas florestais cresceram significativamente, passando de menos de 20% para 33,6% da superfície nacional.
A transformação está diretamente ligada à industrialização, ao crescimento das cidades e à mudança do perfil econômico do país. Hoje, mais de 90% dos italianos vivem em centros urbanos. Em 1931, mais de um quarto da população ainda residia em pequenas localidades rurais espalhadas pelo território. Para um brasileiro acostumado às grandes metrópoles, o dado pode parecer natural.
Mas, na Itália, essa concentração urbana ocorreu em um território relativamente pequeno, onde convivem cidades históricas, áreas agrícolas tradicionais e regiões montanhosas.
O estudo confirma uma preocupação crescente entre cientistas europeus: o Mediterrâneo está entre as áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas. Entre 2006 e 2023, o número médio de dias de verão nas capitais regionais italianas aumentou de 101 para 114 por ano. As chamadas “noites tropicais”, quando a temperatura não cai abaixo de 20°C, passaram de 38 para 49 anuais.
O aquecimento é ainda mais evidente nos mares. Entre 1940 e 2026, a temperatura média do Mar Tirreno e do Mar Adriático subiu mais de 1°C, ritmo considerado aproximadamente duas vezes superior à média global. Nas grandes cidades, o fenômeno das ilhas de calor urbanas agrava o cenário. Em Roma, por exemplo, a temperatura média aumentou cerca de 3°C desde o início dos anos 1980, um crescimento superior ao observado em capitais como Paris, Berlim e Madri.
A história energética italiana acompanha a própria história do desenvolvimento do país. Nos anos 1930, carvão e lenha dominavam a matriz energética. Após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo tornou-se protagonista e impulsionou o chamado “milagre econômico italiano”. Mais tarde vieram o gás natural e, nas últimas décadas, as fontes renováveis.
Hoje, a participação das energias renováveis no consumo interno bruto de energia saltou de 7% em 2005 para 21% em 2024. Na geração de eletricidade, a transformação é ainda mais evidente: quase metade da energia elétrica produzida no país já vem de fontes renováveis, com a meta de alcançar aproximadamente dois terços até 2030. Apesar dos avanços, a Itália continua sendo um dos países europeus mais dependentes da importação de energia.
Outro dado que chama atenção é a evolução na gestão dos resíduos urbanos. Em meados dos anos 1990, 83% do lixo produzido na Itália terminava em aterros sanitários. Hoje, essa parcela caiu para apenas 15%. Ao mesmo tempo, reciclagem e compostagem cresceram de 6% para 55% do total. O resultado é considerado um dos exemplos mais visíveis da transição para uma economia circular, conceito cada vez mais presente nas políticas ambientais europeias.
Os números do Istat mostram uma Itália que mudou profundamente em apenas um século. O país ficou mais urbano, mais conectado e mais eficiente no uso de recursos, mas também enfrenta desafios inéditos relacionados ao clima, à sustentabilidade e à segurança energética.
Para os milhões de brasileiros que visitam, estudam ou fazem negócios com a Itália, esses dados ajudam a compreender uma realidade muitas vezes escondida atrás dos cartões-postais de Roma, Veneza ou Florença: a de um país que busca equilibrar tradição, desenvolvimento e adaptação a um mundo em rápida transformação.
Itália mais quente, mais urbana, mas com mais florestas: como o país mudou em 100 anos

