E se a agricultura do futuro pudesse aprender com as plantas cultivadas no espaço? É essa a ideia por trás de um projeto de cooperação científica que reúne Itália, Brasil e Angola para estudar como as plantas se comportam em condições de microgravidade e, a partir desses resultados, buscar soluções que também possam ser aplicadas na agricultura terrestre.

Segundo a Agência Nova, a iniciativa é promovida pela Organização Internacional Ítalo-Latino-Americana (IILA), com apoio do Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália. O projeto reúne universidades, centros de pesquisa e instituições espaciais dos três países em torno de uma questão que vai muito além da exploração espacial: como produzir alimentos usando menos água, nutrientes e energia em um planeta submetido a pressões climáticas cada vez maiores.

A pesquisa parte de um desafio que parece pertencer exclusivamente à ficção científica. Em uma nave espacial ou em uma futura base fora da Terra, não é possível contar continuamente com o envio de alimentos, água e outros recursos. Quanto mais longa for uma missão, maior será a necessidade de criar sistemas capazes de produzir e reciclar parte desses recursos no próprio ambiente.

É aí que entra a chamada agricultura espacial. Os pesquisadores estudam como sementes e plantas germinam, crescem e se desenvolvem quando a gravidade deixa de exercer sobre elas os mesmos efeitos presentes na Terra. A microgravidade permite observar alterações nos processos fisiológicos e metabólicos das plantas e entender melhor os mecanismos que normalmente ficam escondidos pela ação da gravidade terrestre.

No Brasil, uma nova etapa dos experimentos está sendo conduzida pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). Os pesquisadores analisam justamente o comportamento das plantas em condições de microgravidade, observando germinação, crescimento, desenvolvimento e respostas fisiológicas e metabólicas.

A importância da pesquisa, porém, não termina quando o experimento volta do espaço. Ao compreender como uma planta reage em condições extremas, os cientistas podem encontrar mecanismos úteis para enfrentar situações de estresse também na Terra. A expectativa é que esse conhecimento ajude no desenvolvimento de sistemas agrícolas mais resistentes e eficientes.

Um dos objetivos é particularmente importante para a agricultura brasileira: usar melhor água, nutrientes e energia, reduzindo desperdícios. Em um cenário de mudanças climáticas, aumento da pressão sobre os recursos hídricos e necessidade de produzir alimentos para uma população maior, aumentar a eficiência dos sistemas agrícolas se tornou uma questão estratégica.

A pesquisa também está relacionada aos Bioregenerative Life Support Systems (BLSS), sistemas biológicos concebidos para integrar produção de alimentos e reciclagem de recursos em ambientes isolados. Em futuras missões espaciais de longa duração, uma estufa não serviria apenas para cultivar vegetais. Ela poderia fazer parte de um sistema maior, no qual plantas ajudariam a produzir alimentos, regenerar oxigênio e participar do reaproveitamento de recursos.

A lógica é a de um ciclo fechado. Em vez de depender continuamente de suprimentos enviados da Terra, parte dos recursos utilizados pelos astronautas e pelas plantas seria recuperada, tratada, reciclada e novamente incorporada ao sistema. Quanto maior a autonomia de uma missão, mais importante se torna esse tipo de tecnologia.

Para a Itália, o projeto aproxima dois setores que já são estratégicos para o país: pesquisa espacial e inovação agrícola. A participação italiana inclui a Agência Nacional de Novas Tecnologias, Energia e Desenvolvimento Econômico Sustentável (Enea), por meio do Laboratório Agricultura 4.0, a Agência Espacial Italiana (ASI), a Universidade Federico II de Nápoles, o Gran Sasso Science Institute e a Universidade Telemática Unimarconi.
Do lado brasileiro, além da Esalq/USP e da Embrapa Hortaliças, participa a Agência Espacial Brasileira. Angola entra na cooperação por meio do Instituto Superior Politécnico do Cuanza Sul.

A composição do projeto é importante porque reúne competências diferentes. Agricultura, biotecnologia, engenharia, ciências espaciais e tecnologias de reciclagem de recursos passam a trabalhar sobre um mesmo problema. E essa combinação permite que os resultados obtidos em condições extremas sejam avaliados também pensando em aplicações práticas na Terra.

A cooperação entre os três países tem ainda um significado próprio. Em vez de concentrar a pesquisa espacial exclusivamente em grandes potências e seus programas nacionais, o projeto cria uma rede entre instituições da Europa, América Latina e África, compartilhando conhecimento e infraestrutura científica.

No longo prazo, a aposta é que algumas das tecnologias desenvolvidas para permitir que uma planta sobreviva e produza em um ambiente espacial possam ajudar também a enfrentar ambientes terrestres cada vez mais difíceis. É uma das características mais interessantes da pesquisa espacial: muitas vezes, a pergunta começa olhando para outro planeta — mas a resposta pode acabar sendo útil justamente aqui na Terra.
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