Histórias de Famílias Italianas no Brasil: De Lagonegro ao Brasil: a história de Biase Martorella e de uma família dividida pelo oceano ( Parte 1)

Às vezes, basta um sobrenome escrito de forma diferente para abrir uma porta para o passado.

Martorella torna-se Martorelli, Biase torna-se Braz, Domenico torna-se Domingos. Pequenas mudanças no papel, mas por trás dessas letras transformadas escondem-se viagens através do oceano, famílias separadas pela distância e pessoas obrigadas a reinventar a própria identidade em uma nova terra.

Foi justamente seguindo essas pistas, entre documentos italianos e brasileiros, que Gisela Astrid começou a reconstruir a história de sua família: um percurso que parte da Basilicata e chega ao Brasil, atravessando mais de um século de imigração, retornos e novas partidas.

Uma pesquisa genealógica que a levou de volta mais de um século, até Lagonegro, na Basilicata, onde, em 5 de julho de 1859, nasceu seu trisavô Biase Martorella.

Biase era filho de Salvatore Martorella e Maria Carrano. A família vivia na Via Castello, a cerca de 200 metros da Catedral de São Nicolau de Bari, no coração do antigo centro da cidade. Por meio da recuperação da certidão de nascimento de Biase e do registro de casamento de seus pais, Gisela conseguiu reconstruir também alguns detalhes do cotidiano da família.

Entre eles, a profissão de Salvatore, indicada nos documentos da época como “ramaio”, ou seja, artesão que trabalhava com cobre. Depois, em determinado momento, a história de Biase mudou de direção. Da Itália para o Brasil.

Ainda não foi possível estabelecer com certeza a data exata de sua partida, mas, segundo as pesquisas de Gisela, Biase pode ter emigrado por volta de 1882.

Depois de chegar ao Brasil, até mesmo seu nome começou a mudar.

Biase teria passado a ser chamado de “Braz Martorelli”, enquanto o sobrenome original Martorella ganhou uma nova forma: Martorelli.

Uma simples letra pode parecer apenas um detalhe, mas, na história da imigração italiana, essas mudanças contam muito mais.

Ao atravessar o oceano, os imigrantes não deixavam apenas o seu país. Muitas vezes, também mudava a forma como eram registrados nos documentos. Nomes e sobrenomes eram adaptados à língua local, escritos de maneira diferente ou transformados ao longo das gerações.

E assim, para muitos descendentes, a pesquisa genealógica também precisa seguir os rastros de uma identidade que, embora continue sendo a mesma, pode aparecer nos documentos com nomes diferentes.

No Brasil, Biase conheceu Maria Filomena Colombo, a mulher que se tornaria sua primeira esposa. Maria Filomena nasceu em 29 de setembro de 1869, em Bonito, no Estado de Pernambuco. Ela era brasileira, mas sua história familiar também levava novamente à Itália.

Seu pai, Domenico Colombo, nasceu por volta de 1823 e, segundo as pesquisas realizadas até agora, provavelmente era originário da localidade de Battaglia, no território de Casaletto Spartano, na província de Salerno.

Sua mãe, Filomena Isabella Amato, havia nascido em 23 de dezembro de 1837, em Sapri. Domenico e Filomena se casaram justamente em Sapri, no dia 21 de abril de 1857.

Onze anos mais tarde, em 1868, eles também tomaram uma decisão que mudaria para sempre a história da família. Deixaram a Itália. O destino era o Brasil.

Também nesse caso, a travessia do oceano trouxe consigo uma transformação nos nomes.

Domenico Colombo passou a ser chamado de “Domingos Colombo”, enquanto Filomena Isabella Amato começou a ser registrada como “Filomena Amado”. No Brasil nasceram alguns de seus filhos, entre eles Maria Filomena. E é justamente por meio dessas histórias familiares que a pesquisa de Gisela ganha um significado ainda maior.

A trajetória dos Martorella, dos Colombo e dos Amato se transforma em uma pequena fotografia da grande imigração italiana para o Brasil.

Famílias vindas de diferentes localidades do sul da Itália, que se encontram, atravessam o oceano, constroem novas relações e começam uma nova vida do outro lado do mundo.

Pessoas que mudam de país, de idioma e, às vezes, até mesmo de nome nos documentos, sem apagar completamente o vínculo com a terra de onde partiram.

No dia 30 de novembro de 1882, em Bonito, Biase Martorella e Maria Filomena Colombo se casaram. Maria Filomena tinha apenas 13 anos. Do casamento nasceu uma família numerosa. O primeiro filho, Salvador, nasceu em 1885.

Depois veio Domenico Astrogildo, nascido em 1887, em Sapri.

Em seguida nasceram Audiphas Sofonias, em 1891; Maria Florina, em 1893, que mais tarde se tornaria bisavó de Gisela; Josepha, em 1895; Humberto, em 1898; Filomena, em 1900; Julia Helena, em 1902; Alberto, em 1905; e, por fim, Audifas, em 1908.

O nascimento de Domenico Astrogildo em Sapri revela outro momento particularmente interessante da história da família. Apesar de Maria Filomena ter nascido e crescido no Brasil, depois do casamento ela e Biase viveram durante alguns anos justamente em Sapri, a cidade de onde sua mãe era originária.

É como se aquela família tivesse atravessado o oceano nas duas direções. Primeiro, da Itália para o Brasil. Depois, durante um período, o retorno à terra das origens. E, finalmente, mais uma vez, a viagem de volta ao Brasil.

Uma história feita de partidas e retornos, de países deixados para trás e de lugares que, mesmo depois de gerações, continuavam fazendo parte da memória familiar. Mas a vida de Maria Filomena foi breve. Ela morreu em 5 de agosto de 1911, aos apenas 40 anos.

Com sua morte, encerrava-se uma parte importante da vida de Biase e da história daquela primeira família construída entre o Brasil e a Itália. Mas a viagem de Biase Martorella ainda não havia terminado.

Se a primeira parte de sua vida havia sido marcada pela partida de Lagonegro, pela travessia do oceano e pela construção de uma família numerosa, a segunda abriria um novo capítulo.

Uma nova família, novos laços e uma descendência que continuaria crescendo. E é justamente a partir daqui que a história de Biase continua.

Porque, como acontece tantas vezes nas pesquisas genealógicas, por trás de uma data encontrada em um documento não existe apenas um nome. Existe uma vida inteira.

E, do outro lado do oceano, alguém que ainda hoje continua procurando por ela.

Continuem acompanhando o Jornal Italia para descobrir e ler a segunda parte desta história, além de muitas outras histórias que ainda vamos contar.

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