Histórias de Famílias Italianas no Brasil: A história da família Cappello-Capellato (Parte 1) da Itália ao Brasil

Existem histórias de imigração que contam muito mais do que uma simples viagem de um país para outro. São histórias feitas de sacrifícios, perdas, trabalho e esperança, mas, sobretudo, de famílias que, partindo de condições humildes, buscaram do outro lado do oceano a possibilidade de construir um futuro diferente.

Esta é a história contada por Allan Pietri, brasileiro e bisneto de Mario Zanotello e Amélia Capellato, pais de sua avó materna. Uma história que começa no Vêneto, em uma família cujo sobrenome ainda era Cappello, e chega ao Brasil, onde Angelo e seus descendentes acabariam ligando seu nome à história do transporte público de Valinhos.

“Minha bisavó Amélia era a filha mais nova de Angelo Capellato e Carolina Bassan”, conta Allan. “Angelo e seus filhos dedicaram grande parte de suas vidas ao transporte público de Valinhos. Por isso, pensei em escrever algumas linhas sobre a história deles, começando pela época em que viviam na Itália, quando seu sobrenome ainda era Cappello, até o momento em que realizaram o sonho de ir para o Brasil.”

Os Cappello na Itália

Era sexta-feira, 17 de setembro de 1869. Às nove horas da noite, em Solesino, na província de Pádua, nasceu Angelo, segundo filho de Domenico Cappello e Teresa Lazzarin. Dois dias depois, o menino foi batizado na igreja de Santa Maria Assunta com o nome de Angelo.

A família Cappello, conhecida pelo sobrenome de família Pasotto, tinha suas origens entre Solesino e Stanghella, na região de Pádua. O chefe da família, Domenico, era carroceiro, enquanto Teresa trabalhava como camponesa. Os dois haviam se casado em Solesino, em fevereiro de 1867.

O primeiro filho nasceu em 1868, mas o nascimento terminou em tragédia. Devido a complicações durante o parto, o menino morreu poucos minutos depois de vir ao mundo. Não foi possível batizá-lo nem lhe dar um nome e, por esse motivo, ele não foi registrado no livro de batismos, mas apenas no registro dos falecidos.

Depois dessa primeira perda, nasceram Angelo, em 1869, Pietro, em 1871, e Amabile, em 1873. Esta última morreu apenas vinte dias depois do nascimento.

Era uma família de origem muito humilde e, provavelmente por isso, mudava-se frequentemente de uma cidade para outra, acompanhando as oportunidades de trabalho que conseguia encontrar. Em 1874, Domenico e Teresa se mudaram para Ponso, também na província de Pádua, onde permaneceram por cerca de seis anos.

Em Ponso nasceram Giulia, em 1874, que nasceu morta, Maria Luigia, em 1875, e Amalia, em 1878.

Então chegou outra tragédia. No inverno de 1881, Domenico morreu repentinamente devido a uma doença cardíaca. Tinha apenas 36 anos. Teresa estava grávida e, agora viúva, voltou com os filhos para sua cidade de origem, onde deu à luz a última filha do casal, Teresa, nascida em 1881. Na família, porém, todos a chamavam de Domenica, em memória do pai falecido.

As dificuldades para a família Cappello ainda não haviam terminado. Em 1884, Amabile morreu em Stanghella, aos cinco anos de idade, vítima de difteria.

Dos filhos de Domenico e Teresa, apenas quatro chegaram à idade adulta: Angelo, Pietro, Maria Luigia e Teresa.

Pouco se sabe sobre os acontecimentos da família nos sete anos seguintes. Depois, em julho de 1891, chegou um momento importante na vida de Angelo. O segundo filho de Domenico e Teresa casou-se com Carolina Bassan, natural de Stanghella.

Os dois jovens provavelmente se conheceram entre Solesino e Stanghella. Dois anos depois do casamento, em maio de 1893, nasceu seu primeiro filho, Vittorio, em Stanghella.

Uma nova vida no Brasil

Em 1895, Angelo tomou uma decisão que mudaria para sempre a vida da família: emigrar para o Brasil.

Em 11 de maio de 1895, a bordo do navio San Gottardo, Angelo chegou ao Brasil acompanhado da esposa Carolina, do filho Vittorio e da cunhada Luigia.

Angelo tinha 25 anos e já era o chefe da família. Carolina tinha 23, Vittorio apenas dois, enquanto Luigia, irmã de Carolina, tinha 28 anos.

Como aconteceu com milhares de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil naquela época, o primeiro destino estava ligado ao trabalho agrícola. A família se estabeleceu em Campinas, no interior do estado de São Paulo, onde Angelo e Carolina trabalharam nas fazendas como colonos.

Em Campinas nasceram mais três filhos: Antonio, em 1897, João, em 1899, e Domingos, em 1901.

Depois, a família se mudou para Valinhos.

Valinhos

Um dos primeiros veículos da empresa Capellato, década de 1920

Valinhos é uma cidade do interior do estado de São Paulo, localizada nas proximidades de Campinas. Fez parte do território de Campinas até 1896, quando foi declarada distrito de paz, tornando-se finalmente município em 1953.

Hoje, Valinhos é conhecida nacionalmente como a “capital do figo roxo”, graças à sua importante produção dessa fruta. A cidade também é conhecida pela tradicional Festa do Figo e por ser a cidade natal do compositor e sambista ítalo-brasileiro Adoniran Barbosa.

Foi justamente em Valinhos que a família se estabeleceu em 1903. E foi ali que nasceram os três últimos filhos de Angelo e Carolina: Natale, em 1903, Emma, em 1905, e Amélia, em 1913.

É justamente Amélia, a filha mais nova, que posteriormente se tornaria um elo fundamental na história familiar contada por Allan Pietri.

Foi também em Valinhos, provavelmente durante a primeira década do século XX, que ocorreu uma mudança que permaneceria para sempre na história da família: o sobrenome de Angelo passou de Cappello para Capellato.

Ainda hoje, a família não conhece com certeza o motivo dessa transformação. A hipótese transmitida ao longo das gerações é que pode ter sido resultado de um erro na transcrição dos documentos.

A partir daquele momento, Angelo passou a ser conhecido e chamado por todos como Angelo Capellato. Esse sobrenome, que talvez tenha surgido de uma simples alteração burocrática, seria mantido por todos os seus descendentes até os dias atuais, também nas variantes Capelatto e Capelato.

Em Valinhos, Angelo começou a trabalhar como agricultor e leiteiro. Com as economias acumuladas por meio do trabalho, conseguiu então dar outro passo importante: comprou um terreno e iniciou sua primeira atividade empresarial, uma fábrica de cerâmica.

Mas essa história estava apenas começando. A chegada ao Brasil marcou o início de uma nova etapa para Angelo, Carolina e seus filhos: uma etapa feita de trabalho, coragem e sonhos, mas também de profundas transformações que acompanhariam as gerações seguintes.

Da pequena fábrica de cerâmica aos primeiros veículos, a família Capellato começaria a construir em Valinhos uma trajetória que se tornaria parte da própria história da cidade.

Mas como essa história continuou? Como os filhos de Angelo deram continuidade ao caminho iniciado pelo pai e como a família acabou se tornando protagonista do transporte público de Valinhos?

Essa é a história que ainda vamos contar.

Na próxima parte, aqui no Jornal Italia, continuaremos acompanhando a trajetória da família Capellato, suas conquistas, desafios e o legado que atravessou gerações.

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