sáb. abr 18th, 2026

Existe um momento exato em que a moda deixa de ser apenas algo para vestir e se transforma em outra coisa. Acontece quando perde a função e sobra apenas a ideia. Em Milão, esse momento hoje pode literalmente ser degustado.

No Portrait Milano, dentro do restaurante 10_11, o pastry chef Cesare Murzilli fez algo que vai além da confeitaria. Ele pegou seis sapatos históricos de Salvatore Ferragamo não simples acessórios, mas símbolos de uma época e os transformou em sobremesas.
Não é um exercício estético. É um gesto cultural.

O projeto se chama Cake Couture, mas o nome quase não dá conta. Aqui não se trata de “tortas bonitas”. Trata-se de tradução. De linguagem.
Os sapatos vêm do Museo Ferragamo: objetos pensados para durar, para caminhar, para atravessar o tempo. Murzilli os desmonta e reconstrói em forma comestível, trabalhando texturas, volumes e geometrias.

A sandália Dama vira um jogo de amêndoa, baunilha e framboesa, com detalhes de chocolate colorido que replicam o desenho original. Avanguardie se transforma em uma torta moderna inspirada na pastiera, perfumada com flor de laranjeira e enriquecida com creme de avelã. Damigella, criada para Sophia Loren, ganha uma estrutura mais complexa, com base crocante de avelã, pão de ló de cacau, caramelo de café, namelaka de chocolate e bavaroise de fava tonka.

Iride segue uma linha mais clássica: pão de ló de cacau umedecido com café, creme e zabaione, com decorações de chocolate que lembram renda. A Rainbow, criada para Judy Garland, explode em camadas: creme de rum e chocolate branco, gel de framboesa, cremoso de manga e crocante de pistache.

Por fim, Argo, talvez a mais silenciosa, trabalha com crocante de amêndoas e cítricos, maçãs levemente caramelizadas e uma bavaroise aveludada, finalizada com cobertura de chocolate branco e detalhes dourados. Há algo profundamente milanês nisso tudo. Não apenas a elegância isso seria óbvio mas a capacidade de transformar códigos. Moda vira comida. Luxo vira experiência. Objeto vira narrativa.

E aquilo que antes era distante, intocável, de museu… torna-se acessível. Uma fatia custa cerca de 12 euros. Não é pouco, mas também não é inacessível. É o preço de entrar, ainda que por um instante, em um diálogo entre duas forças culturais italianas: moda e gastronomia.

Duas linguagens que, quando realmente se encontram, deixam de ser separadas.

Quem é Cesare Murzilli

Murzilli não chega aqui por acaso. Sua trajetória passa por lugares que sempre trabalharam no limite entre técnica e visão: o Joia em Milão, o Metamorfosi em Roma com Roy Caceres e a Osteria Arbustico em Paestum com Cristian Torsiello.

Desde 2021, lidera a confeitaria do Portrait Milano, construindo uma identidade precisa: contemporânea, reconhecível, nunca decorativa por si só. É membro da Accademia Maestri Pasticceri Italiani, professor e consultor. Mas, acima de tudo, alguém que entendeu uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: hoje, a confeitaria sozinha não basta.

É preciso uma ideia. E aqui a ideia é clara: pegar algo que todos acreditam conhecer um sapato, um doce e torná-lo instável. Porque, no final, fica a pergunta: você está olhando uma sobremesa… ou comendo um pedaço da história italiana?

E talvez, em Milão, já não exista mais diferença.

Serviço:

Local: 10_11
Dentro de: Portrait Milano
Endereço: Corso Venezia 11, 20121 Milano
Preço: cerca de 12€ por fatia
Formato: porção individual ou bolo inteiro (6–8 pessoas, sob encomenda)

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