Em Trieste, uma mostra de cartões telefônicos desperta a nostalgia de um mundo sem celular

Houve um tempo em que telefonar significava procurar um telefone público, ter algumas moedas no bolso ou guardar cuidadosamente um pequeno cartão telefônico na carteira. Em Trieste, na Itália, essa época volta a ser lembrada em uma exposição que transforma um objeto aparentemente banal em uma pequena cápsula do tempo. A mostra “Pronto? La comunicazione corre sul filo del telefono” está em cartaz no Museu Postal e Telegráfico da Mitteleuropa até 27 de outubro. A informação é do jornal Il Piccolo di Trieste.

Realizada em parceria com a Associação 6idea, a exposição celebra os 50 anos da primeira emissão italiana de um cartão telefônico. A iniciativa percorre a evolução das comunicações desde a época das cabines telefônicas até a chegada dos celulares e, finalmente, dos smartphones, mostrando como aqueles pequenos cartões acabaram registrando também a cultura de uma época.

Na Itália, a história começou em 1976, quando a SIP, então responsável pela telefonia pública, começou a testar cartões pré-pagos para substituir gradualmente as fichas e moedas utilizadas nos telefones públicos. A primeira experiência foi realizada em Roma, e a tecnologia só se difundiria de maneira mais ampla no país a partir do final dos anos 1980.

Durante anos, o cartão fazia parte da vida cotidiana. Podia estar na carteira de um estudante, no bolso de alguém que viajava ou guardado em uma gaveta de casa para aquela ligação importante. E havia algo que hoje parece quase estranho: para falar com alguém que estava longe, era preciso encontrar um telefone, inserir o cartão e discar o número. Não havia WhatsApp, mensagens instantâneas, localização em tempo real ou a possibilidade de simplesmente apertar um botão para ligar para alguém que estava do outro lado do mundo.

O Brasil viveu uma história muito parecida, mas algumas décadas depois. Os primeiros cartões telefônicos brasileiros foram emitidos em 1992, inicialmente apresentados durante o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 e adotados oficialmente durante a Eco-92, no Rio de Janeiro. Eles substituíram as antigas fichas usadas nos famosos orelhões.

A tecnologia brasileira era diferente da italiana: os cartões utilizados nos orelhões eram do tipo indutivo, desenvolvido no país com participação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, o CPqD. No final dos anos 1990, já havia mais de 350 mil telefones públicos a cartão no Brasil, com distribuição mensal de aproximadamente 40 milhões de cartões.

E os cartões brasileiros também ganharam uma característica que hoje os aproxima ainda mais das peças expostas em Trieste: tornaram-se objetos de coleção. As empresas passaram a imprimir imagens de artistas, cidades, eventos esportivos, campanhas publicitárias, paisagens e datas comemorativas. Surgiu até um nome para o hobby: telecartofilia. O Arquivo Público do Paraná registra que o hábito de colecionar cartões telefônicos foi particularmente popular entre meados dos anos 1990 e o início da década de 2010.

A diferença é que, no Brasil, o desaparecimento dos cartões aconteceu em uma transição tecnológica bastante rápida. A expansão dos celulares e, posteriormente, dos smartphones reduziu drasticamente a necessidade dos orelhões. A transformação das telecomunicações também foi acelerada pela abertura do mercado brasileiro a partir do fim dos anos 1990, depois da privatização do sistema Telebrás em 1998.

É justamente essa memória que a exposição de Trieste recupera. Os cartões italianos apresentados no museu não mostram apenas valores ou números de créditos. Suas imagens contam histórias de arte, turismo, esporte, cultura, publicidade e acontecimentos importantes. Alguns deixaram de ser apenas instrumentos de pagamento e passaram a funcionar como pequenas peças gráficas.

Há também obras de artistas que utilizaram os próprios cartões como suporte criativo, aproximando o universo do colecionismo da arte. Talvez seja essa a parte mais curiosa da exposição: um objeto criado para resolver um problema muito prático acabou preservando a memória de um mundo que desapareceu. Um mundo em que era preciso combinar horários, procurar um orelhão na rua e carregar no bolso a possibilidade de fazer uma ligação.

Hoje, quando um celular permite falar por vídeo com alguém a milhares de quilômetros em poucos segundos, um pequeno cartão telefônico pode parecer quase pré-histórico. Mas basta olhar para ele para lembrar de uma época em que uma ligação tinha lugar, hora e espera — e talvez por isso mesmo fosse lembrada por muito mais tempo.
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