Das termas aristocráticas aos spas modernos (episódio 5): como nasceu o turismo do bem-estar

Muito antes de a palavra wellness entrar na moda, os europeus já viajavam em busca de águas termais. Não para férias de praia. Não para conhecer monumentos. Mas para cuidar do corpo. Durante séculos, médicos receitavam temporadas inteiras em cidades termais. Aristocratas atravessavam países para passar semanas tomando banhos minerais. Famílias inteiras organizavam viagens em torno das chamadas “curas termais”. E a Campania estava entre os destinos mais desejados desse universo.

Depois da queda do Império Romano, muitas termas continuaram sendo utilizadas pelas populações locais. Algumas sobreviveram graças a mosteiros, outras graças à tradição popular. Mas foi a partir do século XVIII que o termalismo europeu viveu um renascimento extraordinário. Era a época do Grand Tour. Jovens aristocratas britânicos, franceses e alemães viajavam pelo continente para completar sua formação cultural. A Itália era parada obrigatória. Roma, Florença, Veneza e Nápoles atraíam visitantes fascinados pela arte e pela Antiguidade. E muitos deles acabavam descobrindo também as águas termais da Campania.

As cidades termais passaram a receber escritores, diplomatas, artistas e membros da nobreza europeia. A ideia de saúde começou a se misturar com lazer, paisagem, gastronomia e vida social. Pela primeira vez, o banho termal deixava de ser apenas tratamento para se tornar experiência. No século XIX, com o desenvolvimento das ferrovias, esse movimento ganhou uma dimensão ainda maior. Viajar ficou mais fácil.
As termas passaram a receber não apenas aristocratas, mas também profissionais liberais, comerciantes e membros da burguesia emergente. Hotéis elegantes surgiram ao redor das fontes minerais.

Salões de baile, jardins, cafés e teatros passaram a fazer parte da experiência. Na Campania, cidades como Castellammare di Stabia consolidaram sua reputação como destinos de saúde e descanso. Em Ischia, o turismo termal começou a se estruturar de forma mais organizada, preparando o terreno para a grande expansão que ocorreria no século XX. Foi nesse período que a Itália se transformou em uma das maiores potências termais do mundo.

Médicos passaram a estudar cientificamente as propriedades das águas minerais. Centros especializados surgiram em várias regiões do país. Tratamentos para doenças respiratórias, reumatológicas, dermatológicas e circulatórias ganharam reconhecimento internacional.

Durante décadas, passar alguns dias em uma estação termal era quase um hábito nacional. Muitos italianos ainda lembram das viagens feitas com os pais ou avós para “fazer as águas”. Não era raro permanecer duas ou três semanas em tratamento, seguindo horários rigorosos para banhos, inalações e consumo de água mineral. Mas o mundo mudou.

Nas últimas décadas, as termas precisaram se reinventar. As novas gerações buscavam experiências diferentes. O conceito de bem-estar tornou-se mais amplo. Entraram em cena massagens, alimentação saudável, atividades ao ar livre, meditação, contato com a natureza e programas de relaxamento. Foi assim que nasceu o turismo wellness contemporâneo. Na Campania, a transformação aconteceu de forma natural.

Os antigos estabelecimentos termais passaram a incorporar spas, hotéis boutique, gastronomia local e experiências ligadas ao território. Em Ischia, por exemplo, muitos complexos combinam hoje piscinas minerais, tratamentos estéticos, vinhos locais, culinária mediterrânea e vistas para o mar. A própria ideia de saúde mudou. Se antes o objetivo era tratar uma doença específica, hoje muitos visitantes procuram simplesmente desacelerar. Dormir melhor. Caminhar. Desconectar-se do ritmo frenético das cidades. 



É um movimento que encontra paralelo no Brasil. Nos últimos anos, cresceu o interesse por turismo de bem-estar, experiências ligadas à natureza e viagens focadas na qualidade de vida. Mas a Itália possui uma diferença importante: ali, o wellness moderno foi construído sobre uma tradição de mais de dois mil anos. Por trás de uma piscina termal contemporânea existe quase sempre uma história muito mais antiga. 



Uma história que começa com os gregos, passa pelos romanos, atravessa imperadores, aristocratas, médicos e viajantes, até chegar aos turistas de hoje. E talvez seja exatamente essa continuidade que torna as termas da Campânia tão especiais. Porque, em poucos lugares do mundo, passado e presente conseguem mergulhar na mesma água.

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