ter. fev 3rd, 2026

Chegam os Dias da Merla: mas por que recebem esse nome? Neste ano, parecem mesmo os mais frios

Existem expressões que voltam pontualmente, como uma corrente de ar gelado que passa por baixo da porta. “Chegaram os Dias da Merla” é uma daquelas frases que, na Itália, não precisam de explicação: basta pronunciá-la para evocar gelo, brina nos para-brisas, mãos dormentes e manhãs que parecem mais lentas do que o normal. A tradição diz que são os três dias mais frios do ano. E neste janeiro de 2026, ao menos a julgar pelas temperaturas e pela sensação generalizada, eles parecem querer defender essa fama com orgulho.

De 29 a 31 de janeiro, o calendário popular marcou um pequeno ritual coletivo que mistura meteorologia, lenda e memória compartilhada. Mas o que são, de fato, os Dias da Merla? E por que, apesar dos dados sobre o aquecimento global, continuamos a senti-los como um limite simbólico do inverno?

Segundo a tradição, os últimos três dias de janeiro são os mais rigorosos de frio do ano. As estatísticas meteorológicas modernas contam uma história mais matizada: depois da primeira dezena de janeiro, em muitas áreas da Itália costuma-se observar um lento aumento das temperaturas. Ainda assim, o mito resiste. Mais do que isso: se renova. Porque os Dias da Merla não falam apenas de graus centígrados, mas de espera. Se esses dias forem amenos, diz a sabedoria popular, o inverno vai se prolongar. Se, ao contrário, o frio morder de verdade, então a primavera não demorará a chegar. Uma espécie de presságio climático, transmitido mais pelo instinto do que pela ciência.

As origens do nome afundam na lenda e, como costuma acontecer, existem várias versões. A mais conhecida é a contada às crianças: uma merla, que antigamente era branca, para fugir do frio de janeiro se escondeu com seus filhotes dentro de uma chaminé. Permaneceu ali por três dias, aquecida, até sair no primeiro de fevereiro. As penas, porém, haviam ficado pretas por causa da fuligem. Desde então, diz a fábula, os melros têm essa coloração escura. É uma história simples, quase doméstica, que transforma o frio em narrativa e o gelo em memória.

Outra versão atribui ao mês de janeiro um caráter travesso, quase humano. Janeiro passaria a perseguir uma pobre merla, desencadeando tempestades sempre que ela ousasse sair do ninho. Cansada, a astuta ave acumula provisões e decide ficar abrigada até o fim do mês. Mas janeiro, ofendido pela esperteza, pede emprestados a fevereiro mais três dias para puni-la com um frio ainda mais feroz. Eis explicados os Dias da Merla: não apenas os mais frios, mas também os mais vingativos.

As lendas, porém, não se limitam aos animais. Existem pelo menos duas que envolvem o rio Pó e uma memória histórica muito mais concreta. Quem as relata é um texto de 1740, Modi di dire toscani ricercati nella loro origine, de Sebastiano Pauli. Em uma versão, a “merla” seria um canhão de ferro fundido, negro e pesado, que só podia ser transportado de uma margem à outra do Pó quando o rio estava completamente congelado, justamente nesses dias. Em outra, a protagonista é uma nobre, De Merli, que teria atravessado o rio a pé sobre o gelo para alcançar o marido. Histórias diferentes, o mesmo denominador comum: um frio excepcional, capaz de imobilizar a água.

E hoje? Hoje sabemos que janeiro já não é mais o que era. Os dados sobre o aquecimento global confirmam isso, ano após ano. Os invernos são, em média, mais amenos, as ondas de frio mais curtas e irregulares. Mas é justamente por isso que, quando chegam dias como estes, o contraste se torna mais evidente. O frio parece mais intenso porque surge em um contexto climático alterado, quase fora de lugar. E talvez seja também por isso que os Dias da Merla continuam a nos impressionar: não tanto porque sejam realmente os mais frios em absoluto, mas porque representam uma exceção que nos lembra como era e nos faz perguntar como será.

No fim das contas, os Dias da Merla resistem porque são um limiar. Entre janeiro e fevereiro, entre inverno e promessa de primavera, entre mito e termômetro. E enquanto houver alguém disposto a observá-los como um sinal, eles continuarão a voltar, pontuais, para nos lembrar que o frio não é apenas uma medida, mas também uma história.

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