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Carrara: a cidade onde o mármore nunca ficou parado

Carrara não se deixa resumir. Não é uma cidade de checklist, nem um lugar para ser visitado às pressas. É um território que se impõe por meio de sua matéria-prima, o mármore, que aqui não é apenas recurso, mas destino. Branco, ofuscante, escavado até ferir as montanhas das Alpi Apuane, já conhecido pelos antigos romanos e tornado imortal por Michelangelo, que vinha justamente aqui escolher os blocos destinados às suas obras-primas, da Pietà aos Prigioni.

Carrara está situada entre o mar e a montanha, no noroeste da Toscana, na fronteira com a Ligúria. Junto com Massa, forma a província de Massa-Carrara, um território surpreendentemente diverso que inclui a Riviera Apuana, vinte quilômetros de praias de areia fina, o Parque Regional das Alpi Apuane e a Lunigiana. Pouco mais ao sul começa a Versilia. É uma posição geográfica que explica muito do seu caráter: áspera e aberta, operária e culta, concreta e visionária.

O centro histórico revela essa estratificação. A Piazza Alberica é o coração urbano da cidade, idealizada no século XVI por Alberico I Cybo Malaspina para redesenhar Carrara segundo um traçado moderno. O piso de mármore, as fachadas coloridas e os palácios nobres como o Palazzo Del Medico, que hospedou também Antonio Canova, ou o Palazzo Diana delle Logge restitui a imagem de uma cidade burguesa, elegante, mas jamais distante do trabalho da pedra.

Pouco adiante, a Piazza Duomo abriga o Duomo de Sant’Andrea Apostolo, inteiramente construído em mármore das Alpi Apuane. Três séculos de obras deram forma a uma catedral românico-gótica reconhecível pelas faixas brancas e pretas e pelo esplêndido rosone de vinte raios, hoje símbolo oficial de Carrara como Cidade Criativa da UNESCO. Na mesma praça encontram-se a Estátua de Netuno, conhecida como o Gigante, esculpida por Baccio Bandinelli, e o Palazzo Cybo-Malaspina, antiga fortaleza transformada em residência renascentista e, desde 1805, sede da Academia de Belas Artes de Carrara, uma das mais antigas da Europa, com uma gipsoteca de cerca de três mil obras, de Canova a Thorvaldsen. Uma epígrafe recorda que foi justamente aqui que Michelangelo morou durante suas estadias em Carrara.

Carrara é também uma cidade resistente e contemporânea. A Piazza delle Erbe é o coração partigiano, marcado pelo mural dos Orticanoodles dedicado a Francesca Rolla, protagonista da revolta contra a ocupação nazista em 1944. A Via San Piero, por sua vez, transformou-se nos últimos anos em uma galeria de street art a céu aberto, com mais de trinta murais criados a partir de um projeto de regeneração urbana.

Os museus completam o relato. O MudaC, Museu das Artes de Carrara, instalado no antigo convento de San Francesco, abriga obras provenientes das Bienais Internacionais de Escultura e testemunha o vínculo profundo entre arte contemporânea e mármore. O Museu Cívico do Mármore, atualmente fechado para restauração, permanece uma referência indispensável para compreender a história da extração e do processamento do material. Já o CARMI – Museu Carrara e Michelangelo, em Villa Fabbricotti, narra a relação quase obsessiva entre o artista e este território, cercado por instalações contemporâneas imersas no verde.

Depois, há as pedreiras. Torano, Colonnata, Fantiscritti. Feridas brancas visíveis a quilômetros de distância, hoje no centro de um intenso debate ambiental, mas ainda fundamentais para compreender Carrara. Aqui, a história da extração começa com os romanos, atravessa a Idade Média, explode no Renascimento e chega ao século XIX com a Ferrovia Marmifera, da qual restam os sugestivos pontes de Vara. Em Fossacava, pedreira romana do século I a.C., hoje área arqueológica aberta à visitação, percebe-se o quão antigo é esse vínculo entre o homem e a montanha.

No coração das Apuane, porém, Carrara dialoga também com o presente global. Em Colonnata, na pedreira Gualtiero Corsi, surge uma imagem inesperada: o David de Eduardo Kobra. Realizado em 2017, o mural de cores vibrantes reinterpreta o maior ícone do Renascimento, criando um curtocircuito poderoso entre mármore, street art e identidade brasileira. Uma obra que não celebra o passado, mas o questiona, transformando Carrara, mais uma vez, em um lugar de produção cultural viva.

Carrara é também mar. Marina di Carrara oferece uma longa praia de areia fina, premiada com a Bandeira Azul, com estabelecimentos bem equipados e um calçadão panorâmico de onde se veem, ao mesmo tempo, as Apuane e as pedreiras. Logo adiante estão Marinella di Sarzana, Fiumaretta e Bocca di Magra; ao sul, Marina di Massa e Cinquale, até chegar à Versilia.

À mesa, a cozinha conta uma identidade direta e sem concessões: taglierini nos feijões, mexilhões recheados, bacalhau marinado, polenta, castagnaccio, torta de arroz, tordelli à moda de Massa. Tudo acompanhado pelo Candia dei Colli Apuani DOC, produzido ao longo da Strada do Vinho dos Colli di Candia e da Lunigiana.

O melhor período para visitá-la é o verão, quando Carrara ganha vida com eventos como o Carrara Studi Aperti e o festival C/Art Creativi in dialogo, que transformam ruas e pátios em espaços de performance.

Chegar a Carrara é simples: o aeroporto mais próximo é o de Pisa, a 50 km; de carro, chega-se pelas rodovias A12, A11 e A15; de trem, desce-se na estação Carrara-Avenza.

Carrara não é um cartão-postal. É um corpo vivo, feito de mármore, arte, trabalho e contradições. E é justamente por isso que continua a falar com o presente.

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