Caminhoneiros suspendem os bloqueios na Itália, mas as cidades seguem desabastecidas

Os bloqueios de caminhões que paralisaram estradas e centros de distribuição no sul da Itália começaram a ser removidos, mas a crise ainda está longe do fim. Nesta sexta-feira (23), supermercados continuam com prateleiras vazias, postos de combustível registram filas e parte das bombas permanece sem gasolina ou diesel. A previsão do setor varejista é que sejam necessários de três a sete dias para restabelecer o abastecimento.

A paralisação, motivada pelo aumento dos custos do diesel e pela pressão sobre as empresas de transporte, atingiu especialmente a Campânia, a Calábria, a Puglia e a Sicília. A interrupção das entregas comprometeu a distribuição de frutas, verduras, carne, peixe, leite e outros alimentos perecíveis, além de provocar prejuízos à indústria alimentícia.

Na Campânia, os últimos bloqueios rodoviários foram removidos durante a noite de quinta para sexta-feira. Também foi encerrado o protesto na região portuária de Nápoles. Na Calábria, na Puglia e na Basilicata, a mobilização perdeu força, embora os transportadores mantenham a possibilidade de retomar os protestos caso as negociações não produzam resultados satisfatórios. Em diversos portos do Adriático, pescadores também aderiram à paralisação.

A retomada das entregas começou a permitir a reposição gradual dos estoques. Segundo Mauro Lusetti, vice-presidente da Confcommercio e presidente da rede de supermercados Conad, o setor já havia recuperado cerca de 70% da capacidade operacional. O dirigente estima que os prejuízos somem milhões de euros ao longo de toda a cadeia de distribuição. Os produtos mais afetados são frutas e verduras, além de alimentos muito perecíveis, como carne e peixe.

O problema é especialmente grave para a mozzarella de búfala da Campânia, um dos produtos tradicionais da gastronomia italiana. A interrupção do transporte de leite e de queijos prontos comprometeu a produção e a distribuição, gerando perdas milionárias para os produtores. A escassez também foi agravada pelo comportamento dos consumidores. Com receio de que os produtos desaparecessem das lojas, algumas famílias compraram mais alimentos do que o habitual, aumentando a pressão sobre os estoques disponíveis.

O aumento do combustível está no centro da revolta dos transportadores. Segundo os dados divulgados em 23 de outubro pelo Ministério das Empresas e do Made in Italy, o preço médio do diesel no sistema de autoatendimento era de 2,260 euros por litro na rede rodoviária nacional e chegava a 2,30 euros nas estradas com pedágio. O encarecimento do combustível reduziu as margens de lucro das transportadoras, sobretudo das pequenas empresas e dos caminhoneiros autônomos, que têm menos capacidade para absorver os custos ou repassá-los aos clientes.

A mobilização também expôs problemas estruturais do setor, como as despesas com pedágios, manutenção e veículos, além de práticas comerciais consideradas desfavoráveis pelos transportadores. Diante dos efeitos da paralisação, o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni aprovou, em 22 de outubro, novas medidas de apoio aos transportadores, agricultores e pescadores.

Para as empresas de transporte, foram destinados 45,2 milhões de euros em créditos tributários sobre o diesel comprado entre março e agosto de 2026, além de outros 60 milhões para despesas realizadas entre 1º de setembro e 5 de outubro. Os valores se somam aos 21,2 milhões de euros já previstos para compensar custos relacionados aos pedágios.

O pacote também permite suspender até 31 de março de 2027 as parcelas de leasing de veículos com vencimento entre novembro de 2026 e março de 2027. Para a agricultura, foram destinados outros 60 milhões de euros. Já o setor pesqueiro poderá receber contribuições a fundo perdido equivalentes a 10% das despesas elegíveis, dentro de um limite total de 10 milhões de euros em 2026.

Ao mesmo tempo, Meloni endureceu o discurso contra os bloqueios. A primeira-ministra afirmou que o governo respeita o direito de protestar, mas não aceitará ações que impeçam a circulação de mercadorias ou intimidem trabalhadores que desejam continuar operando.

O Ministério do Interior informou que 1.339 pessoas haviam sido identificadas e 71 denunciadas às autoridades por episódios relacionados aos bloqueios. A Comissão de Garantia das Greves também pediu medidas urgentes para restabelecer a entrega de bens de primeira necessidade e os serviços essenciais. A Procuradoria de Nápoles investiga ainda possíveis infiltrações da máfia na mobilização, hipótese que deverá ser apurada pelas autoridades.

Apesar da retirada de grande parte dos bloqueios, a tensão permanece. Os transportadores aguardam novas negociações com o Ministério dos Transportes, previstas para 27 de outubro, e afirmam que poderão retomar a mobilização se considerarem insuficientes as respostas do governo. Para os consumidores, o desafio imediato é recuperar a disponibilidade de alimentos frescos e combustível. Para as empresas, é evitar que as perdas acumuladas durante a paralisação se traduzam em novos aumentos de preços.
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