Caffè Gilli: o histórico café de Florença é o Bar do Ano 2027

Florença, berço do Renascimento, tem o melhor café da Itália. O histórico Caffè Gilli, aberto em 1733, conquistou o prestigioso reconhecimento concedido pelo guia do Gambero Rosso, uma das mais renomadas publicações italianas dedicadas à crítica gastronômica.

O Gilli é a cafeteria mais antiga da Toscana e uma das mais antigas da Itália e da Europa. O reconhecimento destaca um estabelecimento que conseguiu preservar sua identidade histórica e, ao mesmo tempo, acompanhar as transformações do presente. Os ambientes foram renovados, enquanto a proposta gastronômica também evoluiu para acompanhar os gostos e as necessidades do público contemporâneo. A mixologia ganhou igualmente um papel importante, com uma seleção de coquetéis que ampliou ainda mais a experiência oferecida pelo estabelecimento.

Como já contamos aqui no Jornal Italia, em 1733, quando Florença ainda estava sob o governo de Gian Gastone de’ Medici, a família suíça Gilli abriu na Via dei Calzaiuoli, nas proximidades da Loggia degli Adimari, um pequeno estabelecimento destinado a entrar para a história da cidade: a “Bottega dei Pani Dolci”. Nascida como confeitaria e doceria, rapidamente conquistou o paladar da nobreza florentina, tornando-se uma referência para quem procurava doces, produtos refinados e especialidades de qualidade.

A história do estabelecimento acompanhou também as grandes transformações urbanísticas que marcaram Florença. Entre o final do século XIX e o início do século XX, com o surgimento da Piazza Vittorio Emanuele II e a construção dos novos edifícios ligados ao processo de renovação do centro da cidade, o Gilli mudou de endereço algumas vezes. Primeiro, transferiu-se para a Via degli Speziali, justamente em frente ao Caffè Trianon, antes de chegar à região da atual Piazza della Repubblica, onde encontrou sua localização definitiva nas primeiras décadas do século XX.

Enquanto isso, a praça se transformava em um dos principais pontos de encontro da vida cultural de Florença. As mesas dos cafés passaram a funcionar como uma espécie de salão da cidade, frequentado por artistas, escritores, intelectuais e protagonistas das novas correntes culturais. O Gilli também entrou plenamente nesse ambiente e, durante o período do Futurismo, recebeu personalidades como Filippo Tommaso Marinetti, Ardengo Soffici, Alberto Caligiani, Ennio Pozzi, Silvio Polloni e Emilio Pucci.

Ao lado dos artistas e intelectuais, porém, o café também atraía uma clientela mais irreverente e anticonformista. Entre seus frequentadores estavam aqueles jovens libertinos e sem dinheiro, muitas vezes afundados em dívidas, que, segundo a tradição, viviam “sui chiodi”. Seu ponto de encontro acabou ganhando um apelido curioso que entrou para a história do estabelecimento: o “Caffè dei fachiri”.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Gilli assumiu um novo papel na vida social de Florença. O estabelecimento tornou-se um dos locais preferidos dos jovens florentinos e também começou a receber os primeiros turistas estrangeiros que, justamente naquele período, começavam a descobrir a cidade com interesse cada vez maior.

Foi nesse cenário que, em 1951, diante do Caffè Gilli, foi realizada uma das fotografias mais famosas da história da fotografia: “American Girl in Italy”, de Ruth Orkin. A imagem mostra uma jovem americana caminhando pela calçada da Piazza della Repubblica, atraindo os olhares de um grupo de rapazes. Com o passar do tempo, a fotografia tornou-se um símbolo de uma época e de uma Florença que, entre elegância, curiosidade e o início do turismo internacional, começava a entrar em uma nova fase de sua história.

Nesta edição do guia, o estabelecimento florentino superou os outros quatro finalistas selecionados em nível nacional: o Caffè Vatta, de Trieste, a Pasticceria Sartori, de Erba, na província de Como, o Gran Caffè Quadri, de Veneza, e o Ritorno, de Acerra, na região de Nápoles.

A Toscana confirma mais uma vez sua posição de destaque no cenário da hospitalidade e das cafeterias de qualidade. São 68 os estabelecimentos toscanos presentes na nova edição do guia, número que coloca a região em quinto lugar na Itália em quantidade de endereços selecionados. À frente estão a Lombardia, com 135 estabelecimentos, a Sicília com 79, a Emilia-Romagna com 78 e o Lácio com 72.

A avaliação dos cinco finalistas ficou a cargo de um júri formado por profissionais de destaque dos setores de gastronomia, café e jornalismo gastronômico. Fizeram parte do grupo Ciccio Sultano, illy Chef Ambassador, chef e proprietário do Ristorante Duomo, em Ragusa; Lorenzo Ruggeri, diretor responsável do Gambero Rosso; Marina Savoia, curadora do guia I Migliori Bar d’Italia 2027; Vanina Asquini, Head of Università del Caffè da illycaffè; e David Brussa, Chief Total Quality & Sustainability Officer da illycaffè.

Vinte e sete anos depois da primeira edição, o projeto editorial do Gambero Rosso também renovou o sistema de avaliação dos estabelecimentos. A cafeteria e a proposta gastronômica deixaram de ser consideradas separadamente e passaram a ser analisadas de forma integrada, levando em conta o conjunto da oferta, a identidade e a experiência proporcionada pelo estabelecimento.

A nova edição do guia reúne 912 bares em toda a Itália, com 140 novos estabelecimentos. Ao todo, 57 locais receberam as “Tre Tazzine”, o maior reconhecimento previsto pelo novo sistema de avaliação. Entre eles estão também dez estabelecimentos que chegam pela primeira vez ao nível máximo: La Corte Romanengo, em Gênova; Pan, em Milão; Allegra e Forno Brisa, em Bolonha; Barnum Café e Walter Musco, em Roma; Bistrot Zì Rosa, em Sant’Anastasia; DaMa Italian Bakery e Morettino Caffè, em Palermo; e Charleston Café, também em Palermo.

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