qua. fev 4th, 2026

Após Emily in Paris, conventos silenciosos de Roma atraem viajantes do mundo inteiro

Existe um momento exato em que um hábito marginal deixa de ser invisível e se transforma em desejo coletivo. Isso não acontece nos manuais de turismo, mas na tela. Bastam poucos segundos, uma fala bem escrita, um cenário improvável. E é assim que dormir “em conventos”, uma prática antiga e discreta, entra de repente no imaginário global graças a Emily in Paris.

Na quinta temporada, Roma não é apenas pano de fundo. Ela vira mensagem. Em uma cena rápida, quase caricatural, Luc conta com entusiasmo sua hospedagem em um convento: central, barata, surpreendentemente confortável. A música coral acompanha a sequência, os ovos “abençoados” fazem graça, e o efeito é imediato. O sagrado deixa de parecer distante. Torna-se prático. Moderno. Acessível.

A força da série está exatamente aí: transformar o inesperado em algo desejável. Até um convento pode virar lifestyle quando entra na narrativa certa. E quando a narrativa é global, o impacto é imediato.

O que Emily in Paris deixa explícito encontra eco em números: a Itália segue entre os destinos mais visitados do mundo, com recorde recente de cerca de 133 a 134 milhões de visitantes internacionais por ano, e mais de 450 milhões de noites passadas em acomodações turísticas um número que continua crescendo mesmo frente a desafios como o overtourism.  

Dentro desse contexto, há quase 3.000 propriedades religiosas na Itália que oferecem quartos ao público, muitas concentradas na região de Roma e arredores, justamente onde a série colocou o holofote.  Estas casas “per ferie” e hospedagens religiosas têm sido uma alternativa econômica às diárias de hotel muitas vezes centenas de euros mais baratas com localização central e um ambiente que turistas descrevem como autêntico e tranquilo.  

A Itália já era historicamente um terreno fértil para o turismo religioso: com milhares de igrejas, santuários e mosteiros espalhados pelo país, milhões de visitantes percorrem rotas de fé todos os anos, e igrejas, museus e sacralidade cultural formam parte da experiência turística italiana tradicional.  O que Emily in Paris faz é colocar o foco não apenas na visita a locais sagrados, mas em dormir dentro deles, transformando uma modalidade de hospedagem que sempre existiu em algo desejável e visível.

A estrutura mostrada é exagerada de propósito, mas remete a uma realidade sólida. A Itália possui uma rede extensa de Casas per Ferie e hospedagens de inspiração religiosa. São milhares de imóveis, muitas vezes em prédios históricos e áreas centrais, que recebem milhões de hóspedes por ano. Não apenas peregrinos, mas viajantes estrangeiros, casais maduros, pessoas sozinhas e turistas atentos ao orçamento e à segurança.

O tema ganhou repercussão internacional quando o The Times publicou uma reportagem analisando o fenômeno, partindo justamente da série da Netflix. A conclusão é clara: em tempos de overtourism e hotéis cada vez mais caros, essas estruturas oferecem uma resposta atual. Custam menos, são organizadas, silenciosas e bem localizadas. E, sobretudo, oferecem uma sensação de autenticidade que muitas redes perderam. Não é “como dormir em convento”. É dormir bem.

Persistem estereótipos sobre rigidez e desconforto. Na prática, muitas dessas hospedagens hoje oferecem quartos privados, Wi-Fi, café da manhã e gestão profissional. Existem regras, claro. Horários, acessos controlados, às vezes recolher noturno. Mas isso, para muitos viajantes, é sinônimo de tranquilidade. Em cidades superlotadas, o silêncio vira luxo. Em viagens caóticas, a ordem vira diferencial.

Há ainda um fator essencial: o impacto social. Ao abrir suas portas, muitas congregações conseguem manter edifícios históricos e financiar projetos sociais, educacionais e assistenciais. Para um número crescente de viajantes, pagar menos e ainda contribuir indiretamente com ações solidárias é um valor agregado.

Emily in Paris não inventa o fenômeno. Ela o torna visível. Funciona como acelerador cultural. Toma algo real, simplifica, torna pop e entrega ao mundo. O resultado é uma mudança concreta no comportamento turístico.

Dormir em conventos hoje não é apenas uma escolha econômica. É uma posição. Significa fugir do barulho, aceitar regras em troca de uma experiência mais humana e consciente. Um sinal de que o turismo está mudando guiado não por guias tradicionais, mas por histórias.

E quando quem conta essas histórias é uma série da Netflix, até o silêncio pode virar tendência.

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