Cento e trinta e um anos depois da partida de um jovem mineiro italiano rumo ao Brasil, um descendente voltou a pisar o mesmo solo de onde tudo começou. A história, publicada pelo jornal Corriere Romagna, é a de Gabriel Raphaelli, brasileiro de 38 anos, que viajou até Cesena, na região da Emilia-Romagna, para reconstruir as origens da própria família.
Em 1895, Giuseppe Raffaelli, então com 26 anos, deixou Formignano, nas colinas de Cesena, após a crise das minas de enxofre que devastou a economia local. A descoberta de jazidas mais baratas nos Estados Unidos tornou inviável a extração na Romagna. Como tantos outros trabalhadores, ele embarcou para o Brasil em busca de sobrevivência. Foi parar nas minas de ouro de Minas Gerais, em um país que havia abolido a escravidão poucos anos antes, mas onde as condições de trabalho continuavam duras e perigosas.
A partir daquele sacrifício, a família construiu um novo caminho. O sobrenome mudou para Raphaelli, uma transformação comum entre imigrantes, mas a memória da origem italiana permaneceu viva nas histórias transmitidas de geração em geração.
Gabriel, que vive em São Paulo, é casado e será pai pela primeira vez em abril. Ele está atualmente na Itália para um doutorado em agricultura sustentável na Universidade de Bolzano. Aproveitou uma viagem a Bolonha para tentar novamente encontrar registros do trisavô, algo que já havia tentado sem sucesso em 2015.
Desta vez, com a ajuda de Pier Paolo Magalotti, pesquisador da história das minas de Formignano, a busca deu resultado. Nos arquivos paroquiais foi encontrada a certidão de nascimento de Giuseppe Raffaelli, nascido em 1869. Mais do que uma data, foi a confirmação concreta de uma origem.
A viagem ganhou um significado ainda mais profundo quando Gabriel conheceu parentes que não sabia que existiam. Giordano, de 90 anos, explicou que seu avô Pompeo era irmão de Giuseppe. “Naquele momento, nos abraçamos”, relatou ao jornal italiano. Um gesto simples que condensou mais de um século de distância.
Entre todos os lugares visitados, a pequena igreja de Formignano, onde Giuseppe foi batizado, foi o que mais o emocionou. Caminhar por aquelas ruas e imaginar o jovem que partiu rumo ao desconhecido foi, segundo ele, “uma das coisas mais bonitas da minha vida”. E completou com uma reflexão que atravessa gerações: “Sem ele, eu não existiria. Somos todos filhos das casualidades da vida”.
A história de Gabriel é também a de milhões de brasileiros descendentes de italianos. Uma narrativa de partida forçada, trabalho duro, transformação e retorno simbólico. Um círculo que se fecha não com ouro ou enxofre, mas com pertencimento.
Após 131 anos, brasileiro volta a Cesena para rever a própria história. E encontra as respostas

