Florença nem sempre teve pressa. Houve um tempo em que o almoço era um ritual, a fome um assunto sério, a mesa um lugar onde se decidiam amizades, negócios, reconciliações. Esse tempo não desapareceu por completo: refugiou-se em algumas salas, em certas ruas estreitas, em lugares que nunca sentiram a necessidade de se tornarem “modernos”. A Trattoria 13 Gobbi é um deles.
Ela fica a poucos passos da Piazza Ognissanti, quase escondida entre paredes altas que apertam a rua e obrigam você a desacelerar. A entrada é discreta, sem alarde, como se a própria Florença estivesse testando você: quem tem fome de verdade, entra. Assim que se cruza a porta, o resto da cidade fica do lado de fora. Lá dentro, o ar é carregado de memória, de cozinha vivida, de Toscana autêntica. As vigas de madeira no teto sustentam não só o ambiente, mas todo um imaginário: embutidos pendurados, tranças de alho, objetos que não são decoração, e sim vestígios de outra vida. Um antigo lagar de madeira domina o fundo do salão como um monumento doméstico, enquanto ao redor se acumulam cafeteiras, placas, pratos pintados à mão, rolos de massa gastos, painéis feitos de antigas caixas de vinho que mudaram de função, mas não de identidade.
Aqui não se vem para se surpreender, vem-se para reconhecer. O cardápio fala a língua das trattorias florentinas, aquela que dispensa explicações. Queijos e embutidos chegam à mesa sem timidez, intensos, aromáticos, diretos. O atum de Castiglione com feijão zolfino é um prato que revela uma Toscana menos óbvia, feita de equilíbrio e respeito. A salada de pecorino com pera funciona justamente por não tentar ser algo além do que é, enquanto os queijos com mostarda artesanal reconduzem o paladar a uma dimensão rural e sincera.
Depois vêm as massas, e aí o assunto fica sério. A ribollita, finalizada com um excelente azeite de fazenda, tem aquela profundidade que só pratos repetidos mil vezes conseguem alcançar. As pennette à chiantigiana são francas, sem enfeites. Mas o verdadeiro momento de silêncio acontece quando chegam os rigatoni na sopeira. A massa é colocada no centro da mesa como uma promessa cumprida, o molho perfuma o ambiente, a porção é declaradamente generosa. É um daqueles pratos que não se fotografam: se respeitam.
A grelha não decepciona. A bistecca alla fiorentina faz jus ao nome, assim como as demais carnes que chegam sem necessidade de apresentação. Mas seria um erro ignorar os pratos de peixe, especialmente quando aparecem entre as sugestões do dia. Os acompanhamentos e as sobremesas, aparentemente simples, encerram a refeição com uma precisão que não deixa arrependimentos.
Ao sair da Trattoria 13 Gobbi, Florença parece diferente. Mais lenta, mais compreensível. Talvez seja preciso afrouxar o cinto, talvez não. De qualquer forma, uma coisa fica clara: não se vem aqui apenas para comer. Vem-se para lembrar como era e como ainda pode ser.
Serviços:
Trattoria 13 Gobbi
Endereço: Via del Porcellana, 9/R – Firenze

