qua. fev 4th, 2026

Por séculos, ela foi apenas uma lenda sussurrada por pescadores e historiadores apaixonados: uma cidade romana que teria desaparecido sob as águas da Baía de Cartaromana, engolida por forças sísmicas e esquecida pelo tempo. Mas o mito virou realidade — e a ilha de Ischia, no Golfo de Nápoles, tornou-se um dos destinos turísticos mais fascinantes da Itália neste verão. A antiga cidade de Aenaria ressurgiu das profundezas como um tesouro arqueológico, despertando o imaginário de viajantes e pesquisadores, e transformando o fundo do mar em museu vivo.

A descoberta, feita em 2011, foi resultado de décadas de especulação e pistas deixadas por mergulhadores amadores que, nos anos de 1970, haviam encontrado fragmentos de cerâmica no leito marinho. Guiados por essas relíquias e pela esperança de encontrar algo grandioso, uma equipe de arqueólogos italianos confirmou: Aenaria existiu — e repousava intacta sob as águas de Ischia, entre ânforas, moedas romanas, mosaicos e os restos de um antigo navio de madeira. Um porto inteiro, soterrado não por cinzas como em Pompeia, mas por marés e abalos sísmicos causados pela erupção do vulcão Cretaio, entre os anos 130 e 150 d.C.

Uma cidade entre mitos e mares

Ischia, hoje conhecida por seus spas termais, vinhos vulcânicos e paisagens mediterrâneas cinematográficas, tem uma história que remonta à Grécia Antiga. Colonizada como Pithekoussai, a ilha foi a primeira colônia grega no Ocidente. Mais tarde, os romanos a tomaram e rebatizaram como Aenaria, um centro de comércio estratégico e, como agora se sabe, possivelmente também uma base militar. Escritos antigos de Plínio, o Velho, e do geógrafo Estrabão já mencionavam a cidade, mas sem evidências concretas, ela permaneceu uma incógnita — até agora.

As escavações revelaram que Aenaria era um elo importante entre as rotas comerciais do Mediterrâneo. Cerâmicas da Campânia, ânforas do Oriente Médio, chumbo vindo da Hispânia e até balas de projéteis sugerem que a cidade exercia funções comerciais e militares. A complexidade das estruturas descobertas debaixo d’água — casas, muros, docas — indica que não se tratava de um simples entreposto, mas de um núcleo urbano vibrante, que hoje fascina arqueólogos e visitantes.

Turismo submerso: um convite ao passado

Aenaria, agora acessível ao grande público, tornou-se o epicentro de uma nova forma de turismo cultural em Ischia: o turismo arqueológico subaquático. A cooperativa Marina di Sant’Anna, em parceria com a Ischia Barche, oferece passeios em barcos com fundo de vidro, que deslizam sobre as águas cristalinas da baía revelando os contornos misteriosos da cidade submersa. O espetáculo é silencioso, etéreo, como espiar o passado através de uma lente líquida.

Para os mais aventureiros, há a possibilidade de mergulhar entre os vestígios — uma experiência sensorial de rara beleza, onde história e natureza se fundem sob o azul profundo. Antes do passeio, os visitantes assistem a uma detalhada reconstrução 3D de Aenaria e podem observar artefatos originais recolhidos das escavações, criando uma jornada completa do mito à realidade.

Os valores variam entre 30 euros para os passeios de superfície até 240 euros para imersões guiadas. A experiência é tão imersiva quanto educativa — um convite para repensar o turismo não como consumo, mas como descoberta.

Ischia reinventa seu papel no mapa do Mediterrâneo

Mais do que uma simples curiosidade arqueológica, Aenaria transformou a maneira como Ischia é vista pelos turistas internacionais. A ilha, muitas vezes ofuscada por Capri ou pela famosa Costa Amalfitana, agora se afirma como um refúgio cultural e histórico, onde o glamour do verão italiano se mistura à profundidade milenar das civilizações mediterrâneas.

A redescoberta de Aenaria não é apenas um feito arqueológico; é um convite para desvendar um pedaço esquecido da história romana e testemunhar a resiliência do passado que, mesmo submerso, continua a nos fascinar. Prepare-se para uma viagem inesquecível a um dos novos tesouros arqueológicos da Itália.

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