Existem tradições que se contam.
E existem outras que, quando você tenta explicá-las de verdade, se fecham.
Como se a palavra estivesse sempre um passo atrás do gesto.
No coração da Barbagia, no interior da província de Nuoro (Sardegna), existe um vilarejo onde o Carnaval não é uma festa, mas um limiar. Aqui não há carros alegóricos nem máscaras feitas para entreter. O ritual não serve para distrair, mas para lembrar. É nesse espaço suspenso que nasce o que muitos consideram a lenda popular italiana mais misteriosa: a dos Mamuthones e dos Issohadores.
Isso acontece em Mamoiada, um lugar que durante o Carnaval parece abandonar o calendário comum para seguir um tempo próprio. Um tempo mais lento, mais denso, feito de silêncios, passos medidos e sons profundos que chegam antes mesmo das imagens. Aqui a festa não entretém: encena uma identidade coletiva. E faz isso sem nunca sentir a necessidade de se explicar completamente.
Mamuthones e Issohadores são frequentemente descritos como um enigma, mas chamá-los apenas de “fantasia folclórica” é pouco. Eles são uma linguagem. E como toda linguagem antiga, não nasce para ser traduzida palavra por palavra, mas vivida. Possui regras, papéis e ritmos precisos. Uma gramática feita de corpo, peso e som. E, sobretudo, uma ambiguidade que não é um defeito, mas sua força vital.
Os Mamuthones são os primeiros a marcar o imaginário. Máscara escura, geralmente de madeira, expressão severa, quase imóvel. Sobre os ombros carregam uma quantidade impressionante de sinos, que os torna pesados antes mesmo de assustadores. O passo é lento, cadenciado, hipnótico. Avançam como um único corpo, com uma precisão que parece aprendida mais da terra do que dos homens. O som explode junto e depois se recompõe, como uma respiração coletiva.
Ao lado deles se movem os Issohadores, figuras mais luminosas e dinâmicas. Seu papel é complementar. Movem-se com mais liberdade, observam, conduzem. Usam a soha, uma corda com a qual “capturam” simbolicamente os espectadores. Não é um gesto agressivo, mas inclusivo. Um convite ritual para entrar na cena. Nessa relação convivem peso e agilidade, sombra e luz, força e controle. Mas reduzir tudo a metáfora seria pouco. O ritual funciona justamente porque é maior do que qualquer explicação definitiva.
E é por isso que Mamoiada não sente necessidade de explicar tudo. A comunidade preserva o rito sem cristalizá-lo, deixando o significado aberto, estratificado, vivo. Aqui o mistério não é marketing: é cultura.
Para conhecer de verdade essa lenda popular italiana, é preciso escolher bem o momento. O Carnaval é o período mais intenso, quando o vilarejo vira um palco natural. Mas não espere horários rígidos ou encenações pensadas para turistas. Chegue cedo, caminhe, observe. O som dos sinos chega antes das máscaras, avisando que algo está para acontecer. E muitas vezes é nos intervalos, quando o vilarejo respira, que a atmosfera se revela. Uma regra silenciosa vale mais do que qualquer outra: observar com respeito.
E depois vem a parte que completa a experiência. Também à mesa. Em Mamoiada, a comida não acompanha o ritual: ela faz parte dele. A cozinha não busca efeito visual, mas coerência. Sabores fortes, técnicas antigas, pratos pensados para sustentar o corpo quando o frio aperta e o vilarejo está cheio. Queijos locais, pães tradicionais, receitas que só fazem sentido aqui. E o Cannonau, claro, não como souvenir, mas como companheiro natural do dia.
Porque em Mamoiada a cultura não se explica apenas.
Ela se sente nos passos, se escuta nos sinos e também se reconhece à mesa.
E é exatamente por isso que continua misteriosa.


