Na Itália, o Carnaval nunca foi apenas uma festa à fantasia.
É uma suspensão do cotidiano, uma inversão coletiva, um momento em que a comunidade ocupa as ruas e se reconhece em uma linguagem feita de ironia, excesso e símbolos. O Carnaval não se observa: se vive. E em algumas cidades essa consciência existe há séculos.
É o caso da cidade do Carnaval mais antigo da Itália, onde a festa não é um evento pontual, mas uma memória que se repete, se adapta e se estratifica. Aqui o Carnaval nunca foi algo imposto de fora: cresceu junto com a cidade, misturando devoção religiosa, vida rural e sátira popular. É essa continuidade que o torna único.
Quando se fala em Carnaval na Itália, é impossível não mencionar Veneza. Do ponto de vista histórico-documental, é ali que encontramos uma das primeiras referências escritas ao Carnaval italiano, já na Idade Média. A máscara, na Sereníssima, não era apenas diversão: era uma linguagem social, capaz de misturar classes e papéis. Ao longo dos séculos, Veneza construiu um imaginário fortíssimo: o Carnaval como teatro a céu aberto, entre canais e praças.
Mas existe outra forma de entender o “Carnaval mais antigo”. Não apenas a primeira menção em um documento, mas a continuidade vivida de uma tradição enraizada no território. É nesse ponto que entra Putignano, na Puglia.
Putignano é frequentemente apresentada como uma das cidades do Carnaval mais antigo da Itália e da Europa, não só pela data que reivindica, mas pela maneira como manteve a festa viva. Aqui o Carnaval é longo, estruturado, feito de encontros sucessivos, sátira popular e desfiles que nascem de um trabalho coletivo constante. Não é um fim de semana: é um percurso.
Segundo a tradição local, a história do Carnaval de Putignano remonta ao final do século XIV, quando a chegada das relíquias de Santo Stefano teria dado origem a uma grande celebração popular. Desde então, a festa foi se transformando, absorvendo devoção, ritmo agrícola e crítica social. Ao longo dos séculos, essa continuidade renovada é um dos motivos pelos quais Putignano é vista como a capital de um Carnaval antigo não apenas pela origem, mas pela identidade preservada.
Veneza representa a memória escrita mais antiga do Carnaval italiano. Putignano representa a memória vivida. Setecentos anos não como dado histórico isolado, mas como prática coletiva que atravessa gerações.
Por isso Putignano pode ser chamada, com razão, de a cidade do Carnaval mais antigo da Itália. Não porque permaneceu igual, mas porque soube mudar sem deixar de ser ela mesma. E quando uma festa consegue isso, deixa de ser folclore. Vira identidade.

