Janeiro de 20206 e a MFW homem não escolheu o caminho mais fácil: não apostou tudo na imagem. Apostou na substância. E se, por anos, a moda masculina se alimentou de silhuetas gigantescas, “personagens” de passarela e hype como métrica cultural, a edição MFW 2026/27 mostra uma urgência diferente: o homem precisa voltar a ser crível. Isso não significa “clássico”. Significa possível. Possível no dia a dia, no trabalho, na cidade. Possível no corpo real e nos seus compromissos. Em um momento de reacomodação econômica e identitária, Milão fez aquilo que sabe fazer melhor: transformar a Fashion Week em um dispositivo de realidade.
OS DESFILES: quando a passarela volta a ser linguagem
Zegna: o poder silencioso
A Zegna assina um dos gestos mais nítidos da semana: luxo como disciplina, tecido como autoridade. É uma coleção que não conquista pela provocação, mas pela medida e justamente por isso parece mais moderna do que muitos “novos”. Em um mundo de ruído, a Zegna escolhe a construção.
Dolce & Gabbana: identidade sem concessões
A D&G continua sendo a anomalia que funciona: teatro, erotismo, um código italiano reconhecível. É a marca que não teme o excesso porque sabe que, hoje, a alternativa é o anonimato. Para o bem ou para o mal, Dolce & Gabbana não desfila: assina.
Pronounce: contemporaneidade vestível
Pronounce trabalha um equilíbrio raro: fashion o suficiente para o editorial, concreto o suficiente para a vida. É uma marca que constrói um homem jovem sem caricatura e isso, por si só, já é uma conquista.
Lessico Familiare: o léxico do homem real
Lessico Familiare se move numa direção precisa: moda como gramática cotidiana. É um olhar doméstico e urbano, onde o gesto de estilo não vira máscara, mas afirmação de uma identidade sóbria.
Paul Smith: a elegância gentil
Paul Smith é o antídoto: a cor não como tendência, mas como identidade. Num sistema que oscila entre rigor e ruído, ele segue por uma terceira via: a personalidade. É o menswear que não grita mas dura.
Setchu: moda como design
Setchu é a Milão-laboratório: modular, precisa, inteligente. Não busca viralidade, busca linguagem. E hoje, paradoxalmente, é a escolha mais contemporânea: porque o novo luxo não é a ostentação, e sim a ideia.
Simon Cracker: a imperfeição como discurso político
Simon Cracker vira a lógica do luxo do avesso: não “finaliza”, sobrepõe. O upcycling aqui não é só método, é estética cultural. É uma moda que não quer ser “bonita” no sentido clássico: quer ser verdadeira e por isso, incômoda.
Qasimi: identidade e comunidade
Qasimi trabalha o menswear como linguagem social: não apenas roupas, mas pertencimento, memória, camadas culturais. É um daqueles momentos em que Milão prova que sabe ser também plataforma e não só indústria.
Victor-Hart: experimentação e construção
Victor-Hart insiste na forma como pesquisa. Aqui o menswear vira exercício de construção: a silhueta não é decoração, é estrutura. Um ponto necessário para manter vivo o lado experimental da semana.
Prada: o homem mental, em defesa
A Prada não propõe apenas roupas: propõe um clima psicológico. O masculino é seco, nervoso, quase estratégico. Não é nostalgia slim: é uma resposta cultural a um presente instável. A Prada, como sempre, não conforta: obriga a pensar.
Domenico Orefice: energia emergente
Orefice apresenta um desfile que fala a língua de quem está surgindo: uma identidade em construção, mas já legível. É o ponto em que Milão mostra sua função mais vital: revelar quem está chegando antes que se torne inevitável.
PDF: comunidade e nova energia urbana
PDF aposta no novo formato: o desfile como evento, tribo, pertencimento. É um sinal claro: a moda jovem não procura apenas roupas procura um mundo. Aqui, a cidade vira costume contemporâneo.
Kente Gentlemen, Carnet-Archive, Raimondi, Subwae, State of Chaos, Ajabeng, Absent Findings (Desfiles digitais)
O bloco digital é o retrato do sistema: Milão não pode mais ser apenas passarela física, precisa virar ecossistema. Esses projetos não têm todos o mesmo peso midiático, mas juntos constroem o sentido da semana: scouting, experimentação, velocidade, nova geografia.
AS APRESENTAÇÕES: onde Milão volta a ser capital do produto
Se os desfiles constroem o mito, as apresentações constroem o mercado. E nesta edição elas disseram uma verdade simples: o homem não quer mais “se fantasiar”. Quer comprar bem.
Brioni: a aristocracia do fazer
Brioni leva a alfaiataria como gesto definitivo: não tendência, mas permanência. É luxo no sentido mais puro aquele que vive de mãos, não de ruído.
Kiton: excelência como cultura
Kiton é o relato do produto como valor absoluto: matéria, manufatura, tempo. É a Itália falando às elites internacionais com a gramática da perfeição.
Church’s: heritage, mas com presença
Church’s é o detalhe que sustenta o homem milanês: o sapato como status sóbrio. Num guarda-roupa cada vez mais fluido, permanece como ponto fixo.
Ten C: funcionalidade como identidade
Ten C trabalha o casaco como armadura civil: proteção não é estética, é função. E hoje, função virou desejo.
Lardini: elegância cotidiana
Lardini interpreta a italianidade da forma mais útil: blazers e construções que não gritam, mas funcionam. É a moda que sustenta a vida, não a cena.
Bally: o couro como linguagem
Bally permanece no território mais fértil: acessório e outerwear como sinais de personalidade. É um luxo pragmático, internacional, legível.
Cortigiani: maciez e medida
Cortigiani trabalha o conforto como nova elegância: um homem que se veste bem sem endurecer. É um luxo calmo.
Mordecai: identidade de nicho
Mordecai constrói uma imagem mais específica, mais “editorial”: uma apresentação que trabalha com códigos, com comunidade restrita, com gosto direcionado.
Harmont & Blaine: cor e lifestyle
Harmont & Blaine segue como a versão mediterrânea do menswear como lifestyle: energia, imediatismo, forte apelo comercial.
Pal Zileri: formal recalibrado
Pal Zileri trabalha o formal como linguagem contemporânea: menos rigidez, mais vestibilidade. Uma ideia de escritório atualizada para a cidade real.
Corneliani: classicismo sólido
Corneliani permanece no ponto mais importante de Milão: o homem que quer qualidade, forma e continuidade. É um pilar industrial antes mesmo de estético.
Stone Island: o culto da matéria
Stone Island é sempre uma declaração: tecido, tratamento, pesquisa. Mesmo quando não “desfila”, desloca o imaginário porque fala de uma cultura do produto única no panorama italiano.
Sagaboi: energia contemporânea
Sagaboi traz o ar novo do calendário: a moda jovem que trabalha códigos urbanos e senso de grupo. É um sinal de renovação.
Moarno: o novo híbrido urbano
Moarno capta um ponto de mercado atual: entre formal e street, entre limpeza e gesto. É uma dessas marcas que, se encontrar um código forte, cresce.
Viapiave33: produto como escolha identitária
Viapiave33 se move em um território interessante: qualidade e construção, com uma atitude que permanece “de Milão” sem virar didática.
Latorre: alfaiataria acessível e concreta
Latorre está no coração da cidade produtiva: peças reais, bem construídas, para usar. É uma das apresentações mais “úteis” no melhor sentido.
Eleventy: a normalidade premium
Eleventy é o emblema do luxo contemporâneo fora do show: conforto, materiais, um homem burguês atualizado. Milão, nesse ponto, fala claramente.
Etro: o boêmio como identidade
Etro confirma que a decoração pode ser disciplina. Estampas e texturas não viram fantasia: viram assinatura. É personalidade visível sem ser barulhenta.
Montecore: outerwear como status silencioso
Montecore trabalha o casaco premium como nova hierarquia: poder prático, leitura imediata, luxo funcional.
Rold Skov: romantismo nórdico
Rold Skov apresenta um masculino europeu mais emotivo: limpeza, sensibilidade, controle. É delicadeza que não perde autoridade.
Cucinelli: o luxo ético da calma
Brunello Cucinelli é o manifesto do “viver bem” elevado a sistema: materiais, maciez, tom. Não persegue a estação constrói uma ideia de homem aspiracional, mas humano, onde elegância coincide com serenidade.
Milão Masculino janeiro de 2026 não foi uma semana de efeitos especiais. Foi uma semana de ajuste de rota. E justamente por isso, uma das mais interessantes dos últimos anos. Porque quando a Prada encena a inquietação, a Zegna devolve autoridade, Armani devolve estabilidade e a Dolce & Gabbana relança a identidade como espetáculo, erótico, italiano, reconhecível, Milão envia uma mensagem precisa: o menswear não precisa virar outra coisa para seguir contemporâneo. Precisa voltar a ser crível. E hoje, no meio de uma era que muda rápido demais, a credibilidade não é um detalhe. É uma forma de poder.

