Há nomes que parecem coincidência, mas são herança. Palavras que resistem ao tempo, atravessam mares e permanecem ali, como um sinal deixado para dizer: nós também passamos por aqui. É assim que, ao observar um mapa do Brasil, alguém pode se surpreender ao encontrar São João do Polesine. Um nome que carrega sotaque italiano, que fala de migração, trabalho e memória. Hoje, a esse nome se soma um gesto simples e poderoso: um calendário desenhado por crianças.
A ideia nasceu em Loreo, no coração do Polesine, no norte da Itália. Dentro das salas de aula, um projeto cultural tomou forma de maneira espontânea. Alunos da escola primária Guglielmo Marconi e do ensino fundamental II da escola don Silvio Marchetti começaram a contar a própria cidade por meio do desenho. Pontes, paisagens, símbolos cotidianos: Loreo vista com olhos jovens, curiosos, livres.
Do outro lado do Atlântico, São João do Polesine é um pequeno município rural com pouco mais de três mil habitantes, situado no verde do Vale do Jacuí, no Estado do Rio Grande do Sul. Fundado oficialmente no início dos anos 1990, integra a chamada quarta colônia de imigração italiana no Brasil. Aqui, a herança dos colonos vênetos e emilianos não é apenas passado, mas presença viva: nas tradições religiosas, no idioma, na relação com a terra. A agricultura segue como base da economia local e, entre os campos, ainda funciona um antigo motor a vapor usado para irrigação, símbolo concreto da engenhosidade e da perseverança dos primeiros imigrantes.
Essa memória compartilhada foi o ponto de partida para o encontro entre as duas comunidades. As administrações municipais firmaram um pacto de amizade que deu origem ao projeto “Ti racconto la mia città”, promovido pela secretaria de Cultura e Educação de Loreo em parceria com a rede escolar local. Não se trata de um intercâmbio formal, mas de um percurso educativo integrado ao currículo anual, capaz de transformar a geografia em relação humana.
Os desenhos produzidos pelos estudantes foram reunidos pela conselheira Marilena Berto e transformados em um calendário para 2026. Um detalhe resume o espírito da iniciativa: os meses aparecem escritos em italiano e em português. Duas línguas dividindo o mesmo espaço, como as histórias das duas cidades. O arquivo digital já foi enviado ao Brasil, enquanto os desenhos originais cruzarão o oceano levados por Gabriela Dani e serão expostos na prefeitura de São João do Polesine durante a tradicional Festa do Arroz.
Não é apenas um calendário. É uma afirmação silenciosa. Mostra que a imigração não é um capítulo encerrado, mas um relato em constante renovação. Mostra que identidade pode ser cultivada sem nostalgia, por meio de gestos contemporâneos. E mostra, sobretudo, que muitas vezes são as crianças que mantêm unidos os pontos mais distantes do mundo, com a naturalidade de quem desenha e, sem perceber, constrói pontes.

