O gosto das coisas simples: A poesia líquida da Cugini Caruso sob o sol da Sicília

Existem sabores que a gente não esquece. Não necessariamente porque sejam extraordinários, mas porque estavam presentes em momentos que gostaríamos de guardar para sempre. O bolo da avó, a receita preparada em todos os Natais, o suco servido depois de brincar na rua. Às vezes, basta reencontrar um desses sabores para que a memória faça o resto.

Na Sicília, uma dessas lembranças pode vir acompanhada de bolhas, aroma de limão e uma mesa que parece nunca ficar vazia. Os almoços de domingo no campo, sob o céu azul e o sol generoso da ilha, são o ponto de partida da história da Cugini Caruso. Havia a família reunida, a comida compartilhada e aquelas conversas que atravessavam a tarde sem que ninguém demonstrasse pressa para encerrá-las. Para as crianças, entre as pequenas alegrias desses encontros estava a gazzosa, uma bebida gaseificada tradicional que fazia parte do ritual à mesa.

Foi desse repertório afetivo que nasceram as lembranças de Nuccio Grillo e Tony Favitta. Amigos que carregavam histórias semelhantes da infância e, anos depois, descobriram que aquela saudade poderia dar origem a algo em comum. A ideia surgiu durante um almoço, em uma conversa sobre a possibilidade de criar um negócio próprio. Em 2019, os dois fundaram a Cugini Caruso, em Tremestieri Etneo, na província de Catânia, com a proposta de produzir bebidas inspiradas nos sabores e nos costumes da Sicília.

Há uma curiosidade que torna essa história ainda mais simpática: apesar do nome, que significa “primos Caruso”, os dois não são parentes, mas amigos que escolheram transformar uma memória compartilhada em projeto de vida. E talvez a brincadeira do nome diga muito sobre o espírito da marca: algumas pessoas acabam se tornando família não pelo sobrenome, mas por aquilo que constroem juntas.

Para entender a inspiração da Cugini Caruso, vale olhar para um detalhe da cultura siciliana que costuma passar despercebido fora da Itália: a importância das bebidas refrescantes no cotidiano.

Em uma ilha marcada pelo calor, pelos cítricos e pela convivência ao ar livre, oferecer algo para beber é também uma forma de acolher. Essa tradição atravessa gerações e se manifesta em diferentes preparações, desde costumes locais, como a água aromatizada com anis conhecida em Palermo como acqua e zammù, até as bebidas gaseificadas que conquistaram espaço nas mesas e nos estabelecimentos da região.

A gazzosa pertence a esse universo. Tradicionalmente associada ao limão, leve e efervescente, ela tem uma simplicidade que combina com a ocasião que inspirou os fundadores: um almoço em família, sem formalidades e sem hora marcada para terminar. Talvez seja justamente essa simplicidade que explique sua força afetiva. A bebida não precisava ser o centro das atenções. Estava ali, acompanhando a comida e a conversa, fazendo parte de uma experiência que, com o passar dos anos, ganharia o valor de uma lembrança preciosa.

Mas a tradição siciliana das bebidas não termina na gazzosa. Há um repertório de sabores que merece ser conhecido por quem deseja descobrir a gastronomia italiana para além das massas, dos cannoli e dos pratos que se tornaram famosos pelo mundo.

O chinotto, por exemplo, surpreende pelo perfil cítrico e pelo amargor característico. A aranciata destaca o sabor das laranjas; a limonata aposta na personalidade dos limões; e a mandarinata combina notas doces e ácidas. Já a spuma ocupa um lugar próprio entre as bebidas tradicionais italianas, com seu perfil aromático particular.

São experiências diferentes, que mostram como a cultura de um território também se expressa no copo. Na Sicília, os aromas dos cítricos estão profundamente ligados à paisagem e à identidade gastronômica local. Nas bebidas, essa relação ganha outra forma: refrescante, cotidiana e, para muitos, carregada de recordações.

A Cugini Caruso não surgiu com a intenção de reinventar a tradição, mas de apresentá-la a uma nova geração de consumidores. A proposta dos fundadores combina referências de receitas antigas, sabores ligados ao território e uma identidade visual contemporânea, com garrafas de vidro pensadas para valorizar a apresentação das bebidas e cada bebida é apresentada como uma homenagem a esse universo familiar.

A aranciata, elaborada com laranjas sicilianas segundo a marca, evoca um dos ingredientes mais emblemáticos da ilha. A limonata recupera a intensidade aromática dos limões, enquanto a mandarinata oferece um perfil agridoce para quem gosta de sabores cítricos mais marcantes.

O chinotto, por sua vez, tem personalidade própria. Seu amargor, equilibrado pela doçura, faz dele uma alternativa interessante para quem procura algo diferente dos refrigerantes convencionais. Não por acaso, Nuccio Grillo adotou para si uma descrição bem-humorada: “Leão com ascendente em chinotto”. Tony Favitta também entrou na brincadeira e se definiu como “tudo casa e gazzosa”. Os apelidos, registrados em uma reportagem italiana sobre a empresa, revelam como os sabores escolhidos pelos dois fazem parte da própria identidade do projeto.

A spuma completa esse repertório com uma referência a uma tradição popular de bebidas aromáticas italianas. Assim, a marca não se limita à lembrança que deu origem ao negócio: apresenta diferentes expressões de uma cultura de bebidas que ainda é pouco familiar para muitos brasileiros.

É uma maneira de aproximar o público de um lado menos óbvio da gastronomia siciliana, sem precisar transformar cada garrafa em uma aula de história. Os sabores fazem esse trabalho à sua maneira.

Há algo de universal na história dos dois amigos. Nem todo mundo teve uma infância na Sicília, mas quase todo mundo conhece a sensação de voltar mentalmente a uma mesa, a uma casa ou a um momento em que a vida parecia seguir outro ritmo.

É essa identificação que torna a trajetória da Cugini Caruso mais interessante do que a história de uma marca de bebidas. O produto tem origem em uma experiência pessoal, mas sua inspiração ultrapassa a biografia dos fundadores: fala sobre a importância dos encontros, sobre as tradições que passam de uma geração a outra e sobre a maneira como pequenos hábitos se tornam parte da identidade de uma família.

A gastronomia italiana é frequentemente celebrada por suas receitas e ingredientes. No entanto, muito de seu encanto também está no que acontece ao redor da comida: a mesa que recebe mais um convidado, o prato servido novamente, a conversa que se prolonga depois da sobremesa e a bebida que acompanha tudo isso sem exigir protagonismo.

Na Sicília, esse modo de viver à mesa encontra expressão nos almoços familiares, nos aromas dos cítricos e nas bebidas que atravessam o cotidiano. A Cugini Caruso escolheu transformar essa herança em seu ponto de partida. No fundo, talvez a ideia tenha nascido de uma pergunta que nem precisou ser feita em voz alta: seria possível recuperar, em um gole, um pouco daquela felicidade descomplicada?

O resultado é uma marca que carrega o nome de uma família imaginada, mas tem suas raízes em histórias reais de amizade, infância e convivência e há uma delicadeza nisso. Porque, quando uma garrafa chega à mesa, ninguém precisa conhecer toda a história para apreciar o que está dentro dela. Mas, depois de conhecê-la, talvez o próximo gole venha acompanhado de outra imagem: o sol da Sicília, uma mesa cheia e a vontade de que aquele almoço ainda demore um pouco mais para acabar.

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