SOS cozinheiros: na Sardenha, pode levar até cinco meses para encontrar um profissional

Imagine entrar em um restaurante italiano e descobrir que, por trás de um prato perfeitamente servido, existe uma corrida contra o relógio para encontrar quem vai prepará-lo. Na Sardenha, uma das regiões italianas mais procuradas pelos turistas, a falta de profissionais na gastronomia chegou a um ponto curioso: encontrar um cozinheiro pode levar quase cinco meses.

O dado foi divulgado pela Federação Italiana de Estabelecimentos Públicos (Fipe), com base no relatório Excelsior, da Unioncamere, e publicado pelo jornal L’Unione Sarda. O problema não está apenas na falta de qualificação. Em dois de cada três casos em que uma vaga não é preenchida, segundo a entidade, simplesmente não há candidatos suficientes.

A dificuldade faz parte de um cenário mais amplo. Na Sardenha, 47% das contratações planejadas pelas empresas envolvem profissionais considerados difíceis de encontrar. A situação atinge não apenas restaurantes e hotéis, mas também setores como construção, serviços e atividades ligadas às competências digitais.

A gastronomia é uma das grandes atrações da Sardenha, conhecida por pratos tradicionais, produtos locais e uma cozinha fortemente ligada ao território. Mas manter restaurantes funcionando exige uma equipe que hoje está cada vez mais difícil de montar.

Segundo a Fipe, fatores demográficos ajudam a explicar a situação. A população jovem diminuiu e parte dos jovens deixa a ilha em busca de oportunidades em outras regiões da Itália ou no exterior. Ao mesmo tempo, restaurantes e bares disputam trabalhadores com outros setores da economia.

Há ainda características próprias da profissão: horários noturnos, trabalho nos fins de semana e feriados, sazonalidade e dificuldade para conciliar a vida profissional e pessoal. Para a entidade, o mercado de trabalho mudou e a gastronomia precisa encontrar novas formas de responder a essa transformação.

A discussão também passa pela remuneração. De acordo com a Fipe, o contrato coletivo nacional do setor estabelece, desde junho de 2026, um salário mínimo contratual bruto mensal de 1.693 euros para o quarto nível e de 1.390 euros para o sétimo.

Mas existe um detalhe importante: 59% dos empregados do setor trabalham em regime de meio período, enquanto 60,5% têm contratos por tempo indeterminado. Por isso, a entidade afirma que não é possível comparar diretamente o salário mensal de um trabalhador em part-time com o valor mínimo estabelecido para uma jornada integral.
A Fipe também ressalta que situações como salários abaixo do piso previsto em contrato ou horas trabalhadas e não pagas devem ser denunciadas e punidas.

A dificuldade de encontrar profissionais acontece justamente quando o setor também enfrenta aumento da carga de trabalho. Em comparação com 2019, as horas trabalhadas na restauração italiana cresceram 11%, enquanto o valor agregado aumentou 3,1%. Com isso, a produtividade por hora caiu sete pontos.

Na Sardenha, existem 4.801 empresas do setor com funcionários, com uma média de 5,6 trabalhadores por estabelecimento. São, em sua maioria, pequenos negócios, nos quais a saída de um profissional experiente pode ter um impacto significativo.

Para a Fipe, perder um funcionário preparado significa perder também experiência, treinamento e qualidade no serviço. A solução, segundo a entidade, passa por formação profissional, melhores condições de trabalho, novos modelos de organização dos turnos e maior possibilidade de conciliar emprego e vida pessoal.

No fim das contas, a crise dos cozinheiros revela uma mudança maior no mundo da gastronomia: não basta ter bons restaurantes e turistas dispostos a comer bem. É preciso também encontrar quem esteja disposto a estar atrás do fogão.
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