Em Trieste, uma mostra de cartões telefônicos desperta a nostalgia de um mundo sem celular

Realizada em parceria com a Associação 6idea, a exposição celebra os 50 anos da primeira emissão italiana de um cartão telefônico. A iniciativa percorre a evolução das comunicações desde a época das cabines telefônicas até a chegada dos celulares e, finalmente, dos smartphones, mostrando como aqueles pequenos cartões acabaram registrando também a cultura de uma época.
Na Itália, a história começou em 1976, quando a SIP, então responsável pela telefonia pública, começou a testar cartões pré-pagos para substituir gradualmente as fichas e moedas utilizadas nos telefones públicos. A primeira experiência foi realizada em Roma, e a tecnologia só se difundiria de maneira mais ampla no país a partir do final dos anos 1980.
Durante anos, o cartão fazia parte da vida cotidiana. Podia estar na carteira de um estudante, no bolso de alguém que viajava ou guardado em uma gaveta de casa para aquela ligação importante. E havia algo que hoje parece quase estranho: para falar com alguém que estava longe, era preciso encontrar um telefone, inserir o cartão e discar o número. Não havia WhatsApp, mensagens instantâneas, localização em tempo real ou a possibilidade de simplesmente apertar um botão para ligar para alguém que estava do outro lado do mundo.
O Brasil viveu uma história muito parecida, mas algumas décadas depois. Os primeiros cartões telefônicos brasileiros foram emitidos em 1992, inicialmente apresentados durante o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 e adotados oficialmente durante a Eco-92, no Rio de Janeiro. Eles substituíram as antigas fichas usadas nos famosos orelhões.
A tecnologia brasileira era diferente da italiana: os cartões utilizados nos orelhões eram do tipo indutivo, desenvolvido no país com participação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, o CPqD. No final dos anos 1990, já havia mais de 350 mil telefones públicos a cartão no Brasil, com distribuição mensal de aproximadamente 40 milhões de cartões.
E os cartões brasileiros também ganharam uma característica que hoje os aproxima ainda mais das peças expostas em Trieste: tornaram-se objetos de coleção. As empresas passaram a imprimir imagens de artistas, cidades, eventos esportivos, campanhas publicitárias, paisagens e datas comemorativas. Surgiu até um nome para o hobby: telecartofilia. O Arquivo Público do Paraná registra que o hábito de colecionar cartões telefônicos foi particularmente popular entre meados dos anos 1990 e o início da década de 2010.
A diferença é que, no Brasil, o desaparecimento dos cartões aconteceu em uma transição tecnológica bastante rápida. A expansão dos celulares e, posteriormente, dos smartphones reduziu drasticamente a necessidade dos orelhões. A transformação das telecomunicações também foi acelerada pela abertura do mercado brasileiro a partir do fim dos anos 1990, depois da privatização do sistema Telebrás em 1998.
É justamente essa memória que a exposição de Trieste recupera. Os cartões italianos apresentados no museu não mostram apenas valores ou números de créditos. Suas imagens contam histórias de arte, turismo, esporte, cultura, publicidade e acontecimentos importantes. Alguns deixaram de ser apenas instrumentos de pagamento e passaram a funcionar como pequenas peças gráficas.
Há também obras de artistas que utilizaram os próprios cartões como suporte criativo, aproximando o universo do colecionismo da arte. Talvez seja essa a parte mais curiosa da exposição: um objeto criado para resolver um problema muito prático acabou preservando a memória de um mundo que desapareceu. Um mundo em que era preciso combinar horários, procurar um orelhão na rua e carregar no bolso a possibilidade de fazer uma ligação.
Hoje, quando um celular permite falar por vídeo com alguém a milhares de quilômetros em poucos segundos, um pequeno cartão telefônico pode parecer quase pré-histórico. Mas basta olhar para ele para lembrar de uma época em que uma ligação tinha lugar, hora e espera — e talvez por isso mesmo fosse lembrada por muito mais tempo.
