Morre Emma Bonino, política italiana ícone da luta por direitos e pela Europa

Emma Bonino morreu nesta sexta-feira, em Roma, aos 78 anos. Uma das figuras mais singulares da política italiana contemporânea, ela atravessou mais de cinco décadas de vida pública como parlamentar, ministra, comissária europeia e ativista, quase sempre defendendo posições que, em algum momento, pareciam minoritárias ou incômodas. Bonino estava internada desde 7 de setembro, após uma crise respiratória.

Para quem acompanha a política italiana de fora, talvez seja difícil encontrar uma definição única para Emma Bonino. Ela foi, ao mesmo tempo, uma das principais representantes do radicalismo italiano, uma europeísta convicta, uma defensora dos direitos civis e uma política que construiu sua trajetória mais em torno de batalhas do que de partidos.

Nascida em Bra, no Piemonte, em 9 de março de 1948, Bonino chegou a Roma ainda jovem e entrou no universo dos Radicais, movimento liderado por Marco Pannella. Em 1976, aos 28 anos, foi eleita pela primeira vez para a Câmara dos Deputados. A partir daí, sua presença na política italiana se estenderia por décadas, com mandatos na Câmara, no Senado e no Parlamento Europeu.

Mas foi nas batalhas pelos direitos individuais que seu nome se tornou conhecido. Bonino esteve na linha de frente das campanhas pelo divórcio e pela legalização do aborto, defendendo a autonomia das mulheres em uma Itália ainda profundamente marcada pela influência da Igreja Católica e por uma sociedade muito mais conservadora do que a atual.

Sua própria história fazia parte dessa batalha. Ela passou por um aborto clandestino e decidiu tornar pública a experiência, em uma época em que o procedimento era ilegal. Para Bonino, a política não deveria apenas discutir direitos no Parlamento: era preciso colocar o próprio corpo e a própria vida em jogo para mudar uma sociedade.

Ao longo dos anos, sua agenda se ampliou para a defesa da liberdade individual, dos direitos humanos, dos direitos dos migrantes, da legalização das drogas leves, da liberdade religiosa, da luta contra a pena de morte e do Estado de direito. Sua atuação internacional também a levou a missões e campanhas humanitárias em diferentes partes do mundo.

Uma europeísta antes de a Europa virar consenso

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi o europeísmo. Bonino não via a integração europeia apenas como um projeto econômico, mas como uma construção política baseada em direitos, democracia, liberdade e cooperação entre países. Foi deputada do Parlamento Europeu desde o final dos anos 1970 e, entre 1995 e 1999, integrou a Comissão Europeia como responsável, entre outras áreas, pela ajuda humanitária. Durante seu mandato, a política humanitária europeia esteve envolvida em crises como as da Bósnia, Ruanda, Afeganistão e Colômbia.

A experiência em Bruxelas marcou profundamente sua visão política. Bonino tornou-se uma das vozes italianas mais identificadas com a ideia de uma Europa politicamente mais integrada, capaz de atuar também na defesa dos direitos humanos e diante das grandes crises internacionais.

Essa dimensão europeia acompanhou sua trajetória até os últimos anos. No Senado, onde voltou a atuar em 2018, integrou a Comissão de Políticas da União Europeia e a Comissão extraordinária para a proteção e promoção dos direitos humanos. Também foi ministra do Comércio Internacional e das Políticas Europeias no governo de Romano Prodi e, posteriormente, ministra das Relações Exteriores no governo de Enrico Letta, entre 2013 e 2014.

A dupla entre Emma e Marco Pannella

É impossível contar a história de Bonino sem Marco Pannella. Os dois formaram uma das duplas mais importantes e também mais peculiares da política italiana do pós-guerra. Pannella era o grande estrategista e comunicador do Partido Radical; Bonino, uma presença igualmente combativa, mas com um perfil próprio que acabaria ultrapassando os limites do movimento. Juntos estiveram no centro de campanhas contra o proibicionismo, pela liberdade individual e pelos direitos civis.

A relação entre os dois foi política, intelectual e pessoal, embora nunca tenha se encaixado facilmente nas categorias tradicionais. Mesmo depois dos momentos de maior proximidade, Pannella permaneceu como uma referência fundamental na formação política de Bonino.

Uma figura política que não cabia em partidos

Bonino também passou por diferentes governos e alianças, o que frequentemente provocou críticas. Foi ministra em governos de centro-esquerda e ocupou cargos institucionais mesmo mantendo sua identidade radical. Sua lógica, porém, era outra: os direitos vinham antes dos partidos. Essa postura explica tanto sua capacidade de dialogar com setores políticos diferentes quanto a dificuldade de enquadrá-la no tradicional eixo esquerda-direita.

Em 1999, seu nome chegou a ser colocado entre os possíveis candidatos à Presidência da República. Anos depois, em 2018, criou o +Europa, partido que levou para o centro de sua identidade política justamente a defesa da integração europeia, do liberalismo e dos direitos individuais. Bonino foi também candidata à Presidência da República em diferentes momentos e permaneceu, até os últimos anos, uma referência para uma parte da sociedade italiana que via nela uma política independente das estruturas tradicionais.

A mulher por trás da política

Havia ainda uma Emma Bonino distante dos discursos parlamentares. Ela nunca teve uma relação convencional com a exposição pública. Falava pouco sobre sua vida privada e recusava a ideia de que sua intimidade fosse parte do patrimônio público. Não teve filhos biológicos, mas acolheu duas meninas em regime de guarda temporária, Rugiada e Aurora. Também viveu uma relação importante com o jornalista Roberto Cicciomessere, que ela descreveu como seu primeiro grande amor.

E havia a cigarro. Bonino nunca abandonou o hábito, mesmo depois do diagnóstico, em 2015, de um microcitoma pulmonar. Naquele ano, anunciou publicamente a doença e iniciou o tratamento. Em 2023, comunicou que o câncer estava em remissão completa. Nos anos seguintes, porém, enfrentou novos problemas de saúde, sobretudo respiratórios.

A imagem da mulher fumando, trabalhando diante do computador e recusando conselhos não é suficiente para explicar Emma Bonino, mas ajuda a entender uma característica que atravessou toda sua vida: uma independência quase feroz diante das convenções. Ela podia ser incômoda, teimosa, irônica e, muitas vezes, politicamente inconveniente. Mas foi justamente essa disposição para defender causas antes que se tornassem consensuais que fez dela uma personagem tão singular.

Talvez o melhor modo de compreender seu legado seja olhar para aquilo que permaneceu constante durante décadas: a defesa da liberdade individual, dos direitos humanos, da democracia e de uma Europa mais unida.

Emma Bonino não foi uma política fácil de classificar. Foi, sobretudo, uma mulher que escolheu fazer da própria vida uma longa batalha contra aquilo que considerava uma limitação injusta da liberdade. E poucas trajetórias políticas italianas foram tão coerentes com essa escolha.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *