Fuga de cérebros da Italia: 441 mil saíram, mas metade pode voltar…com algumas condições

A Itália está perdendo jovens qualificados para o exterior, mas o fenômeno não significa necessariamente uma partida definitiva. Um novo levantamento mostra, ao mesmo tempo, o tamanho da perda de capital humano e uma possibilidade de reversão: mais da metade dos italianos que emigraram em 2025 voltou ao país, enquanto entre os jovens que continuam no exterior uma parcela significativa admite retornar, desde que encontre condições profissionais melhores.

O contraste aparece em dois estudos recentes. De um lado, o relatório “Giovani Expat. Come farli tornare”, promovido pelo Conselho Nacional da Economia e do Trabalho (CNEL) e elaborado por REF Ricerche e Questlab, ouviu mais de 2.500 italianos de 18 a 34 anos que vivem fora do país. De outro, uma análise publicada pelo Il Sole 24 Ore chama atenção para os dados do Istat sobre a mobilidade italiana: em 2025, 109 mil italianos emigraram, contra cerca de 56 mil que retornaram. Isso significa que, para cada cem pessoas que deixaram o país, mais de cinquenta voltaram.

Mas os números não contam uma história de sucesso. Entre 2011 e 2024, a Itália perdeu, descontados os retornos, 441 mil jovens entre 18 e 34 anos. Em 2024, o saldo negativo ultrapassou 61 mil pessoas. E a saída é especialmente relevante entre os mais qualificados: em 2024, 40% dos jovens emigrantes de 18 a 34 anos eram formados em nível universitário, contra 19% entre os jovens da mesma idade que permaneceram no país.

O perfil dos entrevistados pelo CNEL é ainda mais qualificado. 93% têm pelo menos um diploma universitário: 45% possuem mestrado, 22% um master, 14% uma graduação de três anos e 12% um doutorado. Para 58%, a saída aconteceu logo depois dos estudos, sem sequer terem trabalhado anteriormente na Itália. A maioria, 87%, vive na Europa, enquanto 8,5% está na América do Norte.

Por que eles vão embora? A principal razão é econômica. Salários baixos são considerados extremamente relevantes por cerca de quatro em cada cinco entrevistados. Depois aparecem uma cultura de trabalho considerada ultrapassada e a percepção de que as competências profissionais não são devidamente valorizadas. A burocracia é apontada por 49%, enquanto 48% citam o peso do clientelismo e das recomendações. Percentual que aumenta entre os jovens que deixaram o sul da Itália.

O problema também aparece na comparação internacional. Segundo os dados reunidos pelo CNEL, entre 2000 e 2024 a diferença salarial, considerando o poder de compra, piorou em relação aos principais países europeus: a Itália passou de uma vantagem de 1% para uma desvantagem de 7% em relação à Espanha e de 14% para 36% em relação à Alemanha. Frente à Suíça, o déficit passou de 39% para 71%.

O custo dessa saída é enorme. O CNEL estima em 159,5 bilhões de euros o valor do capital humano perdido entre 2011 e 2024, o equivalente a cerca de 16 bilhões de euros por ano nos períodos mais recentes. É dinheiro investido na formação de pessoas que depois produzem, trabalham e pagam impostos em outros países.

E eles querem voltar? Em muitos casos, sim. Mas não simplesmente por saudade: 83% dos jovens entrevistados pelo CNEL afirmam que voltariam se encontrassem salários mais altos. Outros 88% consideram muito importantes oportunidades profissionais adequadas à própria formação, enquanto 79% colocam a meritocracia entre as condições para retornar. Também aparecem incentivos ao retorno, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, moradia acessível e serviços públicos eficientes.

Quando precisam escolher uma única prioridade, 53% apontam salários, 19% oportunidades profissionais e 6% meritocracia. No sul do país, a remuneração continua sendo a principal demanda, mas aumentam as reivindicações por estabilidade e reconhecimento profissional.

O dado mais interessante talvez esteja nas perspectivas para os próximos anos. 62,7% dos entrevistados dizem que daqui a cinco anos estarão onde houver as melhores oportunidades, o que significa que não descartam a Itália. Ao mesmo tempo, apenas 6,1% afirmam se ver com certeza no país nesse horizonte. Entre esses últimos, mais de três quartos dizem que voltariam principalmente por motivos afetivos ou saudade, e não por razões profissionais.

É aí que os números do Il Sole 24 Ore ajudam a colocar o fenômeno em outra perspectiva. O retorno de mais de metade dos italianos que emigraram em 2025 mostra que a mobilidade não é necessariamente uma via de mão única. O jornal destaca também que a comparação entre Itália e outros países não pode considerar apenas o salário mensal: entram na conta férias e licenças remuneradas, previdência, assistência, estabilidade e outras proteções associadas ao emprego.

O desafio, portanto, não é simplesmente convencer quem partiu a voltar. É fazer com que voltar seja uma escolha profissional racional. Os próprios jovens entrevistados indicam o caminho: melhores salários, empregos compatíveis com sua formação, reconhecimento do mérito e condições de trabalho que permitam construir uma carreira.

Para um país que envelhece e perde população jovem, a questão deixou de ser apenas migratória. É também econômica: a Itália não está apenas exportando pessoas, mas formação, competências e capacidade produtiva. E, segundo o CNEL, parte desse talento ainda está disposta a retornar, desde que encontre um motivo concreto para fazê-lo.

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