Nascido em Arezzo, na Itália, em 13 de outubro de 1932, Claudio Carsughi morreu aos 93 anos, em São Paulo, nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, após uma infecção respiratória. Ao longo de sua vida, construiu no Brasil uma das trajetórias mais longas e respeitadas do jornalismo esportivo e automobilístico. Italiano de origem e brasileiro por escolha, chegou ao país em março de 1946, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a família decidiu deixar a Itália diante do temor de um novo conflito A primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde a família permaneceu por cerca de um mês antes de seguir para São Paulo. A intenção inicial era permanecer no Brasil por apenas um ano, mas as consequências do pós-guerra e as novas circunstâncias da família fizeram com que aquela estadia se transformasse em uma mudança definitiva.
Ainda criança, Carsughi havia se mudado com a família para Florença, onde nasceu sua paixão pelo futebol e, especialmente, pela Fiorentina. No Brasil, estudou no Colégio Dante Alighieri e posteriormente ingressou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde se formou em Engenharia Civil. Trabalhou durante pouco tempo como engenheiro, mas o jornalismo já havia se tornado uma vocação impossível de abandonar. A escolha profissional foi simples e definitiva: fazer aquilo que realmente amava. Ao longo de décadas, essa decisão transformaria Carsughi em uma das referências mais respeitadas da imprensa esportiva e automobilística brasileira.
O início de uma carreira que atravessaria gerações
Ainda adolescente, Carsughi começou a escrever para o jornal italiano Corriere dello Sport, inicialmente graças aos contatos familiares com a redação. Em 1950, durante a Copa do Mundo realizada no Brasil, passou a produzir informações sobre o ambiente e a movimentação em torno da competição. Era o início de uma carreira que atravessaria mais de sete décadas. No começo dos anos 1950, trabalhou na Rádio Cultura de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Em 1957, chegou à Rádio Panamericana, em São Paulo, emissora que posteriormente se tornaria a Jovem Pan. Começou ligado ao futebol, mas rapidamente ampliou sua atuação para o automobilismo e para a indústria automobilística.
Em 1958, já comentava futebol, Fórmula 1 e assuntos relacionados ao setor automotivo. Entre 1960 e 1963, passou pela Rádio Bandeirantes e posteriormente trabalhou também na Rádio Record. Depois, retornou à Jovem Pan, emissora com a qual manteria uma das relações profissionais mais marcantes de sua carreira. Ao longo dos anos, sua trajetória na rádio se tornou praticamente sinônimo de jornalismo esportivo de alto nível.
No jornalismo impresso, Carsughi também construiu uma carreira extensa. Trabalhou na Gazeta Esportiva e, em 1965, integrou a equipe do recém-lançado Jornal da Tarde, a convite de Mino Carta. Também foi correspondente do Corriere dello Sport, da revista Calcio e Ciclismo Illustrato e do Tuttosport. A partir de 1995, passou a colaborar com o jornal italiano La Stampa, especialmente em assuntos ligados à indústria automobilística. Era justamente nesse encontro entre o jornalista e o engenheiro que surgia uma de suas características mais marcantes. Carsughi não avaliava um automóvel apenas pela impressão causada ao volante. Seu conhecimento técnico permitia analisar motores, comportamento dinâmico, desempenho, segurança e as soluções de engenharia presentes em cada modelo.
O homem que ajudou a transformar o jornalismo automobilístico
Seu primeiro grande teste automobilístico aconteceu em 1956, com a Romi-Isetta, justamente quando a indústria automobilística brasileira começava a ganhar força. A partir daí, Carsughi testou uma enorme quantidade de veículos produzidos no Brasil e no exterior. Em 1971, passou pela Editora Abril, trabalhando na revista Placar. Três anos depois, em 1974, chegou à Quatro Rodas, onde permaneceria por 25 anos e se transformaria em uma das figuras mais importantes da história da publicação. Entre 1974 e 1990, esteve à frente da área técnica e da avaliação de automóveis da revista. Foi o primeiro jornalista a testar o Volkswagen Gol e acompanhou de perto uma das maiores transformações da indústria automobilística brasileira.
Seus testes eram marcados por números, medições e análises técnicas. Desempenho, consumo, comportamento dinâmico e comparação entre modelos faziam parte de um trabalho que exigia conhecimento profundo e rigor. Na época, o jornalismo automobilístico ainda estava longe da velocidade e da facilidade de acesso às informações que existem atualmente. Carsughi testemunhou praticamente toda a transformação da indústria automobilística brasileira: dos primeiros modelos produzidos no país à evolução dos motores, dos sistemas de segurança e da tecnologia embarcada, chegando à era da eletrificação.
Mesmo diante dessas mudanças, manteve algumas convicções. Entre elas, a preferência pelos automóveis com transmissão manual. Para Carsughi, dirigir também significava participar ativamente das decisões do carro, sem deixar que um computador pensasse pelo motorista. Depois de deixar a Quatro Rodas, em 1990, passou a trabalhar na revista Oficina Mecânica, onde continuou desenvolvendo seu trabalho na área automobilística. A experiência acumulada durante décadas de contato com automóveis, fabricantes, engenheiros e profissionais do setor fez dele uma das vozes mais respeitadas da imprensa especializada brasileira.
O jornalista que também viveu o futebol
Apesar de sua enorme contribuição ao jornalismo automobilístico, o futebol jamais deixou de ocupar um espaço importante em sua trajetória. No rádio, Carsughi participou de grandes coberturas esportivas e acompanhou cinco Copas do Mundo consecutivas como comentarista da Rádio Panamericana: 1970, 1974, 1978, 1982 e 1986. Também foi pioneiro no uso de estatísticas durante transmissões esportivas. Informações como número de finalizações, desempenho das equipes e outros dados que hoje fazem parte da rotina das transmissões eram, naquela época, uma novidade. A utilização desses números ajudou a criar uma forma diferente de analisar o futebol, mais objetiva e menos dependente dos lugares-comuns.
A experiência acumulada em diferentes Copas do Mundo permitiu que acompanhasse gerações de jogadores, técnicos, dirigentes e jornalistas. Ao mesmo tempo, sua paixão pelo futebol italiano e pela Fiorentina manteve uma ligação permanente com o país onde nasceu. O adolescente que havia começado escrevendo para um jornal italiano sobre a Copa do Mundo de 1950 acabaria se tornando uma das principais vozes brasileiras na interpretação do futebol internacional.
E havia a Fórmula 1
A partir do final dos anos 1950, Carsughi também passou a acompanhar de perto o automobilismo internacional. Nas décadas seguintes, esteve presente na evolução da Fórmula 1, acompanhando pilotos, equipes, mudanças técnicas e as profundas transformações pelas quais a categoria passou. Seu conhecimento de engenharia fazia diferença nos comentários. Uma corrida, para Carsughi, não terminava na bandeirada. Era preciso compreender o carro, o motor, a estratégia, o comportamento do piloto e as circunstâncias que explicavam o resultado.
Essa combinação entre jornalismo e conhecimento técnico tornou seu trabalho particularmente reconhecido. Carsughi estava entre os profissionais capazes de explicar o automobilismo não apenas pelo espetáculo, mas também pela engenharia que existia por trás dele. Acompanhou a Fórmula 1 desde seus primeiros anos e foi um dos jornalistas que testemunharam praticamente toda a evolução da categoria.
O dia em que anunciou a morte de Ayrton Senna
Entre os momentos mais dramáticos de sua trajetória está o dia 1º de maio de 1994, quando Ayrton Senna sofreu o acidente fatal durante o Grande Prêmio de San Marino. Carsughi acompanhava a corrida de casa e, diante da gravidade do acidente, buscou informações por meio de uma transmissão italiana captada em seu rádio de ondas curtas. Quando foi anunciada a morte encefálica do piloto brasileiro, entrou em contato imediatamente com a Jovem Pan. Foi ao ar para comunicar a notícia que nenhum jornalista gostaria de dar: a morte de Ayrton Senna. O episódio ficou marcado não apenas pela importância histórica da notícia, mas também pela maneira característica de Carsughi lidar com momentos extremos: objetividade, precisão e responsabilidade.
A paixão pela Ferrari e por Maranello
Entre as experiências que marcaram sua trajetória como jornalista automobilístico estão também as visitas à Ferrari. Em 1992, Carsughi foi convidado pela Ferrari para conhecer Maranello. Na pista de Fiorano, teve a oportunidade de testar uma Ferrari Testarossa. A experiência foi posteriormente publicada na revista Oficina Mecânica, onde trabalhava naquele período. Quase duas décadas depois, em 2011, voltou a Maranello. Dessa vez, teve a oportunidade de testar a Ferrari California e conhecer novamente a fábrica, observando as transformações pelas quais a empresa havia passado desde sua primeira visita. Para um jornalista que acompanhou durante décadas a evolução da indústria automobilística, retornar à Ferrari significava também reencontrar parte de uma história profissional construída ao longo de uma vida inteira.
O “Mestre Carsughi”
Com o passar dos anos, o reconhecimento ultrapassou as redações e os microfones. Rubens Barrichello, Felipe Massa, Milton Neves e muitos outros profissionais passaram a chamá-lo de “Mestre Carsughi”. O apelido traduzia algo maior do que uma relação de respeito entre colegas: representava o reconhecimento de uma carreira construída sobre conhecimento, experiência, independência e rigor profissional. Sua personalidade também fazia parte dessa marca. Carsughi era conhecido pela objetividade, pelo humor ácido e pela capacidade de chegar rapidamente ao ponto central de uma questão. Suas opiniões eram diretas e, muitas vezes, desconfortáveis, mas quase sempre sustentadas por conhecimento e análise.
Essa combinação entre a formação de engenheiro e a experiência jornalística fazia com que suas avaliações fossem diferentes. No futebol, utilizava números para escapar do simples achismo. Nos automóveis, recorria ao conhecimento técnico para ir além da impressão superficial. Era, acima de tudo, um profissional que não precisava de muitas palavras para deixar clara sua posição.
Uma trajetória que atravessou mais de sete décadas
A história profissional de Claudio Carsughi não pode ser resumida pelos veículos de comunicação em que trabalhou ou pelos cargos que ocupou. Sua trajetória atravessou gerações e acompanhou profundas transformações da comunicação brasileira. Começou no jornal impresso e no rádio, passou pelas revistas, pelas grandes transmissões esportivas, pela Fórmula 1, pelas Copas do Mundo, pela indústria automobilística, pela televisão e chegou à internet. Viu a indústria automobilística brasileira nascer e se transformar. Acompanhou a evolução dos automóveis desde a Romi-Isetta. Testou gerações de veículos, acompanhou fabricantes e engenheiros e participou diretamente da construção do jornalismo automobilístico especializado no país.
Cobriu cinco Copas do Mundo consecutivas. Acompanhou a evolução da Fórmula 1 praticamente desde seus primeiros anos. Trabalhou em algumas das principais redações esportivas e automobilísticas do Brasil. Conheceu gerações de pilotos, jogadores, dirigentes, engenheiros e jornalistas. Em 13 de outubro de 2025, quando completou 93 anos, Carsughi foi homenageado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em reconhecimento à sua trajetória e à contribuição para o jornalismo e para o automobilismo brasileiro. Mas o reconhecimento mais profundo veio de uma geração de profissionais que aprendeu com ele.
Claudio Carsughi morreu aos 93 anos em setembro de 2026, encerrando uma trajetória profissional que se estendeu por mais de sete décadas. Sua carreira deixa um legado raro: o de um jornalista que conseguiu unir futebol, automobilismo, engenharia e comunicação sem abrir mão da independência de pensamento. Um italiano que chegou ao Brasil ainda jovem e acabou se tornando parte da história do jornalismo brasileiro, um engenheiro que encontrou no jornalismo sua verdadeira profissão, um apaixonado por futebol que ajudou a explicar o esporte através dos números. Um especialista em automóveis que transformou conhecimento técnico em linguagem jornalística.

